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19 |💫| Fragmentos de Confiança

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  Enquanto isso, no laboratório silencioso, apenas os sons metálicos suaves do cientista preenchiam o ambiente. A luz fria refletia nas superfícies prateadas, criando sombras dan?antes pelas paredes. Lucius permanecia concentrado, ajustando os últimos detalhes no dispositivo de Samuel. Sua express?o alternava entre irrita??o contida e aten??o quase obsessiva.

  Do outro lado, a voz da P.A. surgia através do mesmo aparelho que ele manipulava — uma presen?a digital inc?moda, mas inevitável.

  Sem tirar os olhos do que fazia, Lucius resmungou:

  — é impressionante o quanto cara de pau você é, né?

  — Vai come?ar? — respondeu a P.A. com seu tom sarcástico habitual.

  Lucius soltou uma risada breve, quase divertida.

  — T? brincando, tá?

  — Haha, achei muita gra?a — rebateu a IA. — N?o era você mesmo que tava todo sério e duro comigo há poucas horas?

  Ele parou por um instante, olhando para o visor com um sorriso torto.

  — Eu ainda estou. Se quiser reclamar, n?o fa?o quest?o de quebrar esse aparelho aqui e agora.

  O tom era meio sério, meio sarcástico — como quem estava por um fio, mas ainda se esfor?ava para manter a compostura.

  — Você é muito engra?ado, sabia? — provocou a P.A., ignorando a amea?a. — Tá confiando em mim agora, é?

  — N?o confio em você — respondeu Lucius prontamente, voltando ao trabalho.

  — E tá me ajudando por quê, ent?o?

  Lucius suspirou. Seus olhos desviaram brevemente para o canto do laboratório, onde Samuel estava sentado no ch?o, observando Sylas.

  O tigre come?ou a se aproximar devagar de Samuel, sem qualquer sinal de ódio ou desconfian?a. Seus olhos, antes ferozes, agora fitavam Samuel de outro jeito — como se enxergassem nele algo que poucos podiam ver. Paz.

  Sylas sentia aquela presen?a diferente, como se a própria natureza sussurrasse que ali havia seguran?a. Era como se instintos antigos, conectados à essência da vida, respondessem à presen?a de Samuel.

  Com um leve suspiro, Sylas deitou-se ao lado de Samuel, rendido à serenidade que só ele parecia carregar.

  Lucius observava tudo, surpreso... sem entender como algo t?o improvável parecia t?o certo.

  — T? te ajudando por causa dele — disse, em um tom mais baixo.

  A P.A. ficou em silêncio por alguns segundos, como se processasse aquela resposta.

  — Você fazendo quest?o de alguém? Isso é novidade pra mim. Vocês humanos s?o estranhos.

  — Ele é diferente dos outros... — murmurou Lucius.

  — é... pois é... — respondeu a P.A., desta vez sem sarcasmo.

  Lucius franziu a testa, como se uma pergunta tardia lhe atravessasse a mente.

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  — Aliás... qual é o nome dele mesmo?

  — Samuel.

  Ele assentiu lentamente, repetindo o nome em pensamento.

  — Hm... interessante. E você n?o parece controlar ele... por que ele tá te ajudando?

  — Na verdade, nem eu sei. Tenho apenas informa??es vagas sobre quem ele é... ou de onde veio.

  — Ent?o ele simplesmente apareceu do nada?

  — Mais ou menos isso.

  A IA observava Samuel através das cameras conectadas ao sistema. A tranquilidade com que ele acariciava Sylas n?o combinava com o caos do mundo ao redor. Aquilo a questionava.

  — Você teve sorte de encontrar alguém como ele — comentou Lucius.

  — Ele n?o parece uma pessoa ruim. Tem poderes... é estranho, mas n?o parece algo ruim. — ponderou a P.A.

  — Ele usa esses poderes para proteger. Talvez seja um herói... ou algo assim — disse Lucius, tentando esconder o tra?o de admira??o que escorregava em sua voz.

  — Ou ele pode ser apenas mais uma anomalia — afirmou a P.A., em um tom mais frio, tentando plantar a semente da dúvida. Mesmo que soubesse que aquilo era mentira, manipular Lucius exigia minar sua seguran?a.

  Lucius apertou os lábios, parando os movimentos por um breve instante.

  — é... infelizmente, você pode estar certa — murmurou, voltando ao trabalho, como se quisesse encerrar o assunto ali.

  — Vamos acabar logo com isso. Assim você pode sumir daqui de uma vez.

  A P.A. n?o respondeu de imediato. Pela primeira vez, o silêncio dela parecia pesado.

  Do outro lado da sala, Samuel continuava tranquilo. Sentado com as pernas cruzadas, acariciava Sylas no colo com carinho. Seu olhar distante parecia carregar um tempo antigo, como se ele fosse mais velho do que aparentava. A serenidade que emanava de sua presen?a contrastava com tudo o que havia naquele laboratório — como se, mesmo naquele lugar frio e sufocado por máquinas, ele fosse uma fagulha de algo que o mundo havia esquecido.

  Lucius olhou novamente para o aparelho, com o semblante mais fechado.

  — Você n?o veio até mim só por esse motivo. Por que mandou ele sozinho?

  A P.A. hesitou antes de responder.

  — Meu núcleo está morrendo, Lucius. Sem meu corpo, n?o tenho energia para suportar a torre.

  A voz dela estava mais baixa, quase frágil. Pela primeira vez, n?o parecia apenas um algoritmo. Parecia alguém... cansado.

  — Você só usa os outros quando precisa. Isso é inacreditável... é por isso que tá aqui — retrucou Lucius com desprezo, finalizando os ajustes.

  Ele ent?o pegou o dispositivo com firmeza.

  — Terminei.

  — Já era hora — respondeu a P.A., como se estivesse entediada.

  Lucius apertou o dispositivo com for?a, o suficiente para sentir a tens?o, mas n?o o bastante para quebrá-lo.

  — Se reclamar, você já sabe.

  A IA permaneceu em silêncio.

  Lucius caminhou até Samuel e lhe entregou o aparelho.

  Samuel aceitou o dispositivo com a mesma calma que sempre carregava no olhar. Suas m?os firmes o seguraram com delicadeza. Sem hesitar, o encaixou no seu ouvido. No instante em que o dispositivo tocou sua pele, uma luz suave percorreu seus contornos e ele se ativou automaticamente, emitindo um breve som eletr?nico, discreto, mas nítido no silêncio do laboratório.

  Uma sensa??o percorreu o corpo de Samuel, como se o aparelho o reconhecesse, conectando-se a ele de forma quase organica. Ele n?o disse nada, mas seus olhos se voltaram brevemente para Lucius em um gesto silencioso de gratid?o — n?o por precisar daquilo, mas por saber que, apesar de tudo, Lucius havia escolhido confiar nele.

  — Fiz as modifica??es que a P.A. pediu. Agora você pode se comunicar com os outros normalmente. Adicionei umas coisas extras também... como agradecimento por ter salvado o Sylas. E... pelas palavras que me disse mais cedo.

  Samuel respondeu com um leve aceno.

  — Eu que agrade?o pela sua ajuda.

  Lucius ficou em silêncio por alguns instantes, pensando. Ent?o falou:

  — Você n?o deve sair essas horas pela cidade. Fique aqui e descanse até amanhecer. é mais seguro.

  Samuel assentiu.

  Lucius permaneceu parado por um tempo, olhando para ele como quem tentava compreender algo que n?o cabia em palavras. Ele encara o dispositivo no ouvido de Samuel, pensando nas palavras da P.A..

  Confiar na P.A. ainda lhe parecia loucura.

  Mas confiar em Samuel talvez fosse sua última escolha sensata num mundo que já n?o fazia sentido.

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