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Capítulo 1: Floresta Torta

  Micah abriu os olhos, já era manh?, e algo úmido pinicava seus bra?os. Ele estava deitado sobre um tapete de musgos.

  Ele se levantou devagar. A dor nas costas, resultado da queda da noite anterior, ainda latejava, acompanhada por uma enxaqueca penetrante que embaralhava qualquer tentativa de raciocínio.

  “Merda… Isso é ressaca...? Eu bebi ontem à noite por acaso?”

  Ele tentou organizar os pensamentos, mas a luz da manh? invadiu seus olhos, tornando o ambiente ainda mais estranho.

  Uma densa floresta o cercava, mas havia algo profundamente errado ali, algo que fazia o ar pesar e arrepiava sua nuca. As árvores n?o pareciam naturais. Suas bases retorcidas se curvavam grotescamente, formando um “C” deformado que mais lembrava corpos se contorcendo em agonia do que uma forma??o natural. Cada tronco torcido se estendia por cinco metros antes de se endireitar, onde se ramificavam em galhos longos e arqueados, com folhas finas e escuras que lembravam pinhas mortas de um abeto, ressecadas pelo tempo. Mas o que realmente fazia seu est?mago revirar era a uniformidade impossível daquele cenário; todas as árvores eram idênticas, cada curva, cada rachadura, cada sombra projetada no ch?o úmido parecia clonada. Todas apontavam para o norte, como dedos acusadores, ou soldados de um exército morto há eras, marchando silenciosamente em forma??o. Eram altas, sufocantes, estendendo-se até dezenas de metros acima, onde suas folhas espessas formavam uma abóbada natural que bloqueava o sol. Era como se a luz tivesse medo de entrar ali. O silêncio era opressor, mas n?o era um silêncio vazio — havia uma vibra??o, um zumbido baixo, quase inaudível, que parecia emanar das árvores, tal como o sussurro abafado de algo vivo, algo que o observava.

  Micah sentiu o peso de dezenas, talvez centenas de olhos invisíveis que o avaliavam como uma presa.

  A floresta era úmida e fria, com uma brisa constante que fazia Micah tremer em suas roupas leves de ver?o. Além das árvores e alguns arbustos frutíferos escassos, em toda sua extens?o havia musgos e fungos de diferente tamanhos e formas, mas todos com uma cor cinzenta, morta, e levemente transparente, como se tivessem algo mais a oferecer, escondendo suas verdadeiras facetas por trás de uma aparência mundana e póstuma.

  Micah esfregou os olhos, passou a m?o em um dos troncos curvados para sentir a textura áspera coberta de musgos e confirmou o que já sabia: aquilo n?o parecia um sonho. Era real. Frio, cruelmente real.

  “Mas o que... Onde diabos eu fui parar?”

  Quando tinha certeza de sua sanidade e lucidez, finalmente se deu conta do ambiente frio. Aquela n?o era S?o Paulo. Ele sabia disso. O clima temperado n?o fazia sentido. Era dezembro, pleno ver?o. E aquela floresta? Parecia saída de um pesadelo ou de um conto de fadas europeu, nada que ele já tivesse visto na América do Sul.

  Mortificado, de modo compulsório, enfiou sua m?o no bolso esquerdo da bermuda, procurando por seu celular, no entanto, ele se encontrava vazio. Depois no direito, nada. Ent?o revirou todos os bolsos de sua bermuda, mas nenhum continha um único objeto sequer.

  “Porra! Devem ter me roubado enquanto dormia também. Mas que inferno, eu n?o tinha nem terminado de pagar por isso ainda… ” Micah resmungou.

  Só ent?o Micah reparou em uma longa estrada de pedras desgastadas que se estendia em sua frente, o que, portanto, significaria que há uma cidade por perto, onde ele poderia obter mais informa??es sobre onde ele estava e, possivelmente, voltar pra casa.

  Micah seguiu a estrada pela dire??o da curva das árvores — O Norte.

  …

  Ele caminhou durante duas horas seguidas, suas pernas clamavam por descanso enquanto ele sentia o próprio tutano de seus ossos congelar, a brisa constante n?o era forte, mas zombava de suas roupas inadequadas ao frio, uma paródia barata do 2° Círculo do Inferno que era igualmente torturante, e, ironicamente, uma puni??o apropriada a ele.

  Quando a companhia — imaginária ou n?o — de milhares de seres lhe observando já havia se tornado habitual, ele viu silhuetas no horizonte, acompanhada por um som quase inaudível de cascos batendo contra a pedra. Micah se escondeu por trás de um arbusto e observou cautelosamente. Era uma caravana.

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  “Espere… Cavalos, pessoas! Uma caravana? Est?o de elmos… de ferro…? Oque é isso afinal, um grupo de cosplay no meio de uma floresta?!”, o ruivo se perguntou, franzindo o cenho.

  A caravana tinha cinco carruagens, todas cobertas por um teto de tecido branco, o que sugeria que carregavam conteúdo perecível. Havia pessoas que se assemelhavam à soldados medievais em ambos os lados da frota, os poucos raios solares que passavam pelas copas, refletiam no equipamento deles, insinuando que todas as pe?as eram verdadeiras. Tanto suas cotas de malha, elmos, piques e alabardas eram de metal legítimo, n?o plástico ou papel?o, mas um material sério e letal.

  Quase todos usavam túnicas de corte padronizado, negras e impecavelmente alinhadas, com um bras?o bordado no centro do peito. O bras?o era composto por um escudo dividido verticalmente em três faixas: preta à esquerda, prateada ao centro e dourada à direita. Sobre o escudo, havia um triangulo dourado apontado para cima. Em cada vértice do triangulo, uma espada prateada estava fincada. No centro do triangulo, um olho prateado detalhado fitava o mundo com frieza. Abaixo do escudo, uma pequena faixa com o lema bordado em linha dourada dizia: “Três Pilares, Um Reino”.

  Todos possuíam cabelos de tons claros, variando entre loiros e castanho-claros. Os loiros os deixavam à mostra com orgulho, enquanto a maioria dos castanho-claros os escondia sob os elmos, como se quisessem evitar compara??es.

  O único soldado com uma túnica prateada era um que caminhava na frente da caravana, ele era jovem, aparentava ter a mesma idade que Micah — 24 anos —, seus longos cabelos loiros, que próximos de suas pontas eram levemente esbranqui?ados, estavam amarrados em um rabo de cavalo frouxo que descia até sua lombar, possibilitando que uma mecha rebelde flua em frente à sua face como fios d'ouro, que ao descer gradualmente viravam mármore — n?o, prata. Sua face, exceto pelas sardas, era quase perfeitamente simétrica, estranhamente andrógena, mas, ainda assim, com uma masculinidade plena e confiante. Tanto sua postura quanto sua beleza eram t?o diferentes dos outros soldados brutos, que sua mera presen?a ali se assemelhava à uma colagem mal feita. Seus olhos, t?o verdes quanto esmeraldas, transmitiam um olhar que, de alguma forma, era tanto focado quanto sem dire??o, um olhar de alguém que leva sua fun??o à sério, mas, ao mesmo tempo, está preso em um eterno devaneio, no qual nem mesmo a morte iminente o poderia tirar. Sua armadura, quase que completa, e sua postura claramente comunicavam um status elevado de lideran?a, mas além disso, nada mais poderia ser espremido daquela misteriosa figura loira pela vis?o de Micah.

  Quando o quarto carro passou por Micah, seu cora??o apertou e ele quase suspirou alto demais ao notar duas filas de pessoas, de todas as idades e gêneros, no entanto, todas ruivas, seguindo a caravana por ambos os lados. Seu estado era deplorável, todas estavam algemadas e com seus calcanhares amarrados por uma única corrente presa às carro?as. Estavam sujas, descal?as, claramente desnutridas e exaustas. O tilintar das correntes era como uma orquestra silenciosa de desesperan?a e sofrimento, pois, se qualquer uma das pessoas sequer deixasse escapar um único gemido de dor, era imediatamente chicoteada por um dos soldados que acompanhavam as duas filas.

  Micah cerrou os punhos quando viu uma das crian?as ser punida. Sua carne frágil cedeu sob a for?a do couro, tingindo as roupas rasgadas de um vermelho escuro que parecia mais velho do que novo. A única coisa que o menino podia fazer era soltar um grito rouco de dor e continuar mancando em passos sofridos.

  Lágrimas escorriam silenciosamente por suas bochechas sardentas, mas, apesar disso, n?o soltava qualquer reclama??o — e isso dizia tudo. N?o era a primeira vez.

  Suas costas estavam cobertas de feridas grotescas; algumas t?o profundas que deixavam visíveis fragmentos esbranqui?ados de ossos, como cacos de porcelana rompendo a carne, seu corpo magro tremendo a cada movimento.

  Foi ent?o que Micah percebeu outro detalhe que lhe apertou ainda mais o peito: as m?os da crian?a.

  Cada m?o terminava em apenas três dedos — longos e tortos, como galhos quebrados. Era uma deformidade evidente, uma cicatriz de nascen?a que o mundo havia o condenado sem nem perguntar. Ele n?o tinha sequer o consolo da normalidade para protegê-lo das puni??es. Ali, naquele lugar, a diferen?a era mais uma desculpa para a violência.

  E, ignorando todas probabilidades... a crian?a seguia em frente.

  Como uma vela que se recusava a apagar, mesmo sob tempestade.

  Foi ent?o que Micah percebeu a verdade, uma t?o cruel que o fez prender a respira??o: Isso n?o era uma encena??o. N?o eram pessoas fantasiadas. Aqueles eram seres humanos, reais, de carne e osso, e suas feridas n?o eram uma maquiagem bem-feita, mas cicatrizes abertas, pulsando sangue. A vis?o da crian?a mancando se gravou na sua mente como um espectro, e o cheiro de sangue, suor e a impotência mais profunda enchia suas narinas, da mesma forma que o cheiro do córrego o deixou tonto na sua anterior tentativa de suicídio.

  Micah sentiu seu corpo tremer. Sua garganta se fechou, mas n?o era medo — era o sufoco do que ele sabia ser verdadeiro, de que sua covardia n?o era um viés. Ele sabia que mesmo que ele tivesse os recursos, ele n?o daria um passo sequer pelo medo mais descarado, uma autopreserva??o imunda que n?o se vê nem na pior gente, a confirma??o de seu egoísmo.

  Ele n?o se sentia mal pelos prisioneiros, nem mesmo pela crian?a, ele se sentia mal por si mesmo. No fundo, ele sabia que n?o se importava com essas pessoas, e isso era o seu maior medo — n?o ele n?o poder ajudar elas, mas de que, naquele momento, ele fosse a pior pessoa do mundo. Mesmo com o sofrimento alheio, ele n?o parava de pensar sobre si mesmo, e mesmo sendo o indivíduo mais egoísta do mundo, n?o ousaria desafiar uma única pessoa para se impor, pois ele só serve para agradar, agradar e agradar.

  Como o puxa-saco egocêntrico que sempre foi.

  De repente, ele escutou um grito, era um dos soldados, olhando diretamente para ele:

  — EI. VOCê, COMO FUGIU?!

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