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O Dia em que o Rato Mordeu

  Henry se virou de costas para mim, caminhando em dire??o à porta como se tudo estivesse resolvido.

  Como se vidas fossem apenas relatórios encerrados.

  Como se Alex e Diego fossem só números riscados de uma lista.

  Fiquei parado por um segundo a mais do que devia.

  O silêncio do lugar me esmagava os ouvidos. N?o havia música, n?o havia gritos só o som dos meus próprios pensamentos, batendo uns nos outros como animais presos.

  Eu fiz exatamente o que eles mandaram.

  Mentir.

  Fingir.

  Abaixar a cabe?a.

  E nada mudou.

  Diego morreu.

  Alex morreu.

  Por minha culpa.

  N?o porque eu quisesse.

  Mas porque eu tive medo.

  Medo de morrer.

  Medo de sentir dor de novo.

  Medo de voltar àquela cama fria, às agulhas, ao líquido azul queimando por dentro.

  Eu me aliei ao cartel porque achei que sobreviver era o suficiente.

  N?o era.

  Olhei para minhas m?os. Elas tremiam.

  N?o de fraqueza mas sim de nojo.

  "Chega… " murmurei, mas minha própria voz soou distante, quase irreconhecível.

  Henry já estava quase na porta. Assobiava baixo, relaxado, como alguém satisfeito com o próprio trabalho.

  O homem que ria enquanto falava de mortes.

  O homem que me chamava de 'garoto esperto' enquanto me empurrava mais fundo no inferno.

  Algo se rompeu dentro de mim.

  N?o foi raiva explosiva.

  Foi um cansa?o absoluto.

  Cansei de obedecer.

  Cansei de sobreviver às custas dos outros.

  Cansei de corpos grudando nos meus pensamentos.

  Levantei a m?o.

  Meu bra?o parecia pesar toneladas, mas ainda assim obedecia.

  O indicador apontou, trêmulo, para as costas de Henry.

  "Isso acaba agora. " falei, dessa vez alto o suficiente para o mundo ouvir.

  Henry come?ou a virar o rosto, confuso, sobrancelha arqueada, pronto para fazer mais uma piada.

  N?o dei tempo.

  Ativei o Selo de Invers?o.

  A energia U respondeu imediatamente, diferente de todas as outras vezes.

  N?o houve hesita??o.

  N?o houve dor.

  Era como se o selo estivesse esperando por aquela decis?o.

  Senti o fluxo sair do meu corpo em linha reta, comprimido, instável, mas brutalmente eficiente. Um feixe curto, denso, quase invisível a olho nu puro deslocamento energético.

  O disparo atingiu o lado esquerdo do pesco?o de Henry.

  O impacto n?o foi explosivo.

  Foi cirúrgico.

  A energia atravessou carne, músculos e vasos como se fossem papel molhado, estra?alhando a jugular e a carótida no mesmo instante. O sangue saiu em um jorro quente e violento, pintando a parede e o ch?o antes mesmo que o corpo entendesse o que tinha acontecido.

  Henry levou a m?o ao pesco?o, os olhos arregalados, a boca se abrindo e fechando em desespero mudo. Tentou rir. Tentou falar.

  Só conseguiu engasgar no próprio sangue.

  Ele caiu de joelhos.

  Eu fiquei parado, o bra?o ainda estendido, o selo de invers?o tremendo na minha m?o.

  Meu cora??o batia t?o forte que parecia querer sair pela boca.

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  " Eu… " minha voz falhou. " Isso… isso acaba agora."

  Henry riu.

  Riu engasgando.

  " Hah… hah… " o sorriso dele continuava ali, torto, manchado de vermelho. " Você… é pior do que eu pensei, garoto…"

  O sangue come?ou a recuar.

  N?o parar.

  Recuar.

  Os vasos se fecharam sozinhos, como raízes se encolhendo. A carne se reconstruiu em segundos, fios negros surgindo sob a pele, costurando o rasgo de dentro pra fora.

  Henry se levantou lentamente, estalando o pesco?o como se tivesse acordado de um cochilo.

  " Eu esqueci de te avisar uma coisa, Mateus… " Ele limpou a boca com o polegar. "Eu n?o morro fácil."

  Meu est?mago afundou.

  " Você devia ter corrido. " Ele abriu os bra?os. " Agora… vamos brincar de verdade."

  O ch?o rachou.

  Do concreto, surgiram estacas negras feitas de carbono comprimido, rasgando o piso como dentes. Eu pulei para trás por instinto, sentindo uma delas raspar minha panturrilha.

  " Merda!"

  Ativei o Selo de Liga??o no mesmo segundo.

  O calor percorreu minha perna, queimando por dentro, a carne se fechando rápido demais, dolorosamente rápido.

  " Boa! " Henry bateu palmas. " Cura acelerada! Sempre gostei dessa parte."

  Ele avan?ou.

  Transformando o sangue dele em laminas. Ele cortou o ar rápido demais.

  Ergui o Selo de Invers?o instintivamente.

  Uma barreira bruta de energia U surgiu na minha frente.

  CRASH.

  A lamina atravessou metade da barreira antes de parar.

  A for?a do impacto me lan?ou contra a parede.

  " Ack!"

  Senti algo estalar no ombro.

  " Tá vendo? " Henry disse, se aproximando com passos tranquilos. " Você tem for?a… mas n?o tem convic??o."

  Ele bateu o pé no ch?o.

  Do piso, correntes de carbono explodiram, enrolando minhas pernas e cintura. Apertei os dentes enquanto elas se fechavam, esmagando minhas costelas.

  " Diego morreu gritando, sabia? " Ele se inclinou perto do meu rosto. " Igualzinho você vai—"

  " CALA A BOCA PORRA!!!"

  Empurrei tudo que tinha para o Selo de Invers?o.

  A energia explodiu para fora do meu corpo num pulso bruto, arremessando as correntes para longe. Senti minha garganta arder, sangue subindo.

  Cambaleei, mas fiquei em pé.

  " Eu… " respirei com dificuldade " …n?o vou mais deixar ninguém morrer por minha causa."

  Henry arqueou a sobrancelha.

  " Bonito discurso. " Sorriu. " Pena que chegou tarde."

  Ele estalou os dedos.

  Moldando a lamina em um martelo colossal. O golpe veio de cima.

  Eu n?o pensei.

  Corri para frente.

  No último segundo, girei o corpo e concentrei tudo no punho direito.

  O Selo de Invers?o brilhou, instável.

  O de Liga??o queimava, tentando manter meu corpo inteiro.

  Meu soco acertou o cotovelo dele.

  O impacto n?o foi explosivo foi cirúrgico.

  O carbono rachou.

  O bra?o de Henry se despeda?ou em fragmentos negros que se espalharam pelo ch?o como cinzas.

  Ele gritou.

  Um grito real, finalmente.

  " SEU!"

  Ele tentou se recompor, mas eu já estava em cima dele.

  Outro soco.

  Depois um joelho.

  Depois um empurr?o que o jogou contra a parede.

  " Você fala demais. " Minha voz tremia, mas n?o parei.

  Henry escorregou pela parede, o corpo tentando se reconstruir, mas mais lento agora. O sorriso tinha sumido.

  " Heh… " Ele cuspiu sangue. " Olha só… o ratinho virou—"

  Eu apontei a m?o tremendo para ele.

  O Selo de Invers?o girava fora de controle.

  Mas o mundo come?ou a perder contorno.

  Primeiro foi a vis?o as bordas escurecendo, como se alguém estivesse fechando as cortinas devagar demais. Depois veio o gosto metálico na boca. Meu nariz come?ou a sangrar, quente, constante, pingando no ch?o sem que eu tivesse for?as para limpar.

  Minhas pernas cederam.

  O ar… o ar simplesmente n?o entrava.

  Era como se meus pulm?es tivessem esquecido como funcionar.

  O selo de invers?o piscou uma última vez na minha m?o e se desfez em partículas opacas. A energia U que antes queimava dentro de mim agora escorria como água por um ralo quebrado.

  " N-n?o… " tentei dizer, mas minha garganta só produziu um som seco.

  Henry me observava com a cabe?a levemente inclinada, curioso. N?o havia pressa nele. Só interesse clínico.

  "Hipoventila??o." disse ele, quase satisfeito. " Seu corpo entrou em colapso pelo uso for?ado da energia. Muito comum em despertares instáveis."

  Ele se aproximou, os passos ecoando no ch?o sujo da casa verde.

  " Você fez bem em tentar. " continuou, sorrindo. " Quase poético, na verdade. Um rato tentando morder o le?o."

  Minha vis?o apagava em ondas.

  O som ficou distante.

  Meu cora??o batia rápido demais, depois… lento.

  Quando senti que ia cair de vez, algo me segurou.

  Bra?os firmes. Conhecidos.

  O cheiro pólvora, café velho e sangue seco.

  " Ei. " uma voz soou perto do meu ouvido. " Fica comigo, garoto."

  Meus olhos se abriram com esfor?o.

  Alex.

  Ele estava ali.

  De pé.

  Vivo.

  O terno rasgado, o peito ainda manchado de sangue seco onde o bast?o o atravessara. Mas os olhos… os olhos estavam vermelhos.

  " M-mas você… " tentei falar.

  Ele me apoiou com cuidado no ch?o, encostando minhas costas na parede.

  " Depois eu explico. " disse baixo. " Agora respira devagar. Eu cuido do resto."

  Henry recuou um passo.

  Só um.

  Seu semblante era de raiva.

  "como este merda tá vivo"

  Alex se endireitou lentamente.

  " Henry, n?o é? " Alex disse, limpando o sangue da boca com o polegar. " Eu lembro de você. Alquimia organica. Manipula??o de carbono. Muito impressionante… no papel."

  " Você devia estar morto. " Henry respondeu, a voz ainda raivosa, mas com algo novo por baixo. " Eu desliguei seu cérebro por tempo suficiente."

  Alex sorriu.

  " é… " ele respondeu. " Você quase conseguiu."

  Ele abriu a m?o.

  O valete de ouros deslizou entre seus dedos como se tivesse vida própria.

  " Mateus… " disse sem tirar os olhos de Henry. " Você fez a coisa certa."

  Engoli em seco, sentindo lágrimas misturadas ao sangue.

  " E agora? " consegui perguntar.

  Henry finalmente parou de sorrir.

  Alex deu um passo à frente.

  "N?o se preocupe, Mateus. " disse, a voz firme como a?o. " Eu assumo daqui."

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