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tempos de calmaria (parte 2)

  16/09/2020 --- Apartamento do Alex

  Abri a porta e a primeira coisa que me recebeu foi o silêncio.

  A segunda foi a bagun?a.

  Sapatos jogados perto do sofá. Papéis espalhados pela mesa. Um casaco largado na cadeira

  como se eu tivesse saído correndo, o que de certa forma, foi exatamente o que aconteceu.

  Nada tinha mudado.

  E, por algum motivo, isso me incomodou.

  Fechei a porta com o pé e fiquei parado por alguns segundos no meio da sala. Londres estava

  fria lá fora, mas o apartamento tinha aquele cheiro familiar de lugar fechado há dias.

  Passei a m?o pelo rosto.

  Mensagem do Holland:

  "Vem jantar. A Liz também vai."

  Soltei o ar devagar.

  Liz.

  Será que ela estava brava por eu ter sumido? Eu n?o tinha ligado. N?o tinha explicado nada. E

  ela disse que descobriu mais coisa sobre o pai dela.

  " ótimo " murmurei para mim mesmo. " Miss?o internacional, assassinato político e agora

  confronto social."

  Olhei para mim.

  Cheirei a própria axila.

  " Nossa eu preciso de um banho."

  Sem pensar duas vezes, fui direto para o banheiro.

  A água quente caiu sobre meus ombros como se estivesse lavando mais do que suor e sangue

  seco. Fechei os olhos e deixei a cabe?a encostar no azulejo.

  Fazia tempo que eu n?o tomava um banho assim. Sem pressa. Sem estar esperando um ataque.

  Sem ouvir tiros ao fundo.

  A água escorria pelo meu rosto, misturando-se com memórias que eu preferia esquecer.

  Harry

  México.

  Torben.

  O tiro.

  Respirei fundo.

  Quando saí, o espelho mostrava alguém diferente. Mais cansado. Mais velho do que deveria

  talvez foi a lan?a.

  Passei a toalha pelo cabelo e fui até o quarto. Abri o guarda-roupa e escolhi algo que parecia

  normal. Camisa escura, cal?a alinhada. Meio social. Meio "eu ainda sou funcional".

  Enquanto abotoava a camisa, fiquei encarando meu reflexo.

  " Você consegue fazer isso " murmurei.

  Era só um jantar.

  Mas, depois de tudo, parecia mais difícil do que enfrentar El Matador.

  Peguei as chaves, o celular e parei na porta por um segundo.

  O apartamento continuava bagun?ado atrás de mim.

  Talvez eu arrumasse quando voltasse.

  Ou talvez n?o.

  Girei a ma?aneta.

  " Tá bom" sussurrei para o vazio. " Vamos ver se ela vai brigar comigo."

  Peguei um ?nibus

  O ?nibus parou exatamente em frente ao restaurante.

  Por um segundo, achei que aquilo fosse algum tipo de ironia do destino, eu ainda dependia da

  sorte pra n?o chegar atrasado num jantar.

  Desci.

  Na cal?ada, sob a luz amarelada dos postes, Holland estava encostado na parede, fumando. Os

  cabelos loiros balan?avam com o vento frio de Londres. Ele me viu, tirou o cigarro da boca e

  abriu um sorriso de canto.

  " Alex " ele soltou a fuma?a devagar. " N?o pensei que ia sentir tanto sua falta. Você sabe como é

  deprimente fumar sozinho?"

  " Oi, Holland. é... deve ser difícil mesmo."

  Ele inclinou a cabe?a, me analisando.

  " Você tá mentindo. Você n?o se importa de verdade."

  Suspirei.

  " Ei. Para de usar seu poder."

  Ele deu uma risadinha baixa.

  " Quer um cigarro?"

  Fiquei olhando para o ma?o por alguns segundos.

  " Eu n?o fumo há uns vinte dias e acho que n?o vai ser legal voltar."

  " Ah cara, você voltou mó chato. Vamos logo."

  Ele estendeu o cigarro mesmo assim. Peguei.

  " Tá bom. Um só n?o vai fazer mal."

  Coloquei na boca. Dei um trago.

  Antes mesmo da fuma?a sair, um tapa rápido atingiu o cigarro, lan?ando-o no ch?o.

  " Ei! " Holland reclamou.

  Eu olhei para o lado.

  Cabelos verdes que brilhavam sob a luz da rua. Olhos intensos. Jaqueta cinza, jeans simples.

  Liz.

  " Vocês tem que parar de fumar. Isso vai matar vocês " ela disse, cruzando os bra?os.

  " Tá bom, m?e " Holland revirou os olhos enquanto apagava o cigarro com o pé. " Vamos entrar,

  eu quero comer logo."

  Ele passou por nós e entrou no restaurante.

  Ficamos só eu e ela na cal?ada por um segundo.

  " Oi, Liz."

  " Oi, Alex. " Ela me observou com aten??o. " Como foi no México?"

  " Bem."

  Resposta curta demais.

  Ela percebeu.

  "E o garoto? "

  " Ah... ele está bem. Já foi pra casa."

  O olhar dela suavizou.

  " Que bom."

  Ela sorriu.

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  E, por um momento, o peso que eu vinha carregando pareceu diminuir.

  Ela tem um sorriso perigoso, pensei. Perigoso porque me faz querer ser alguém melhor.

  " Vamos logo, Alex " ela disse, tocando de leve meu bra?o antes de entrar.

  Eu congelei por meio segundo com o toque.

  Depois segui.

  Entramos e nos sentamos à mesa onde Holland já nos esperava, folheando o cardápio como se

  estivesse escolhendo uma refei??o antes de uma execu??o.

  Eu me sentei de frente para Liz.

  E, pela primeira vez desde o México eu estava nervoso de verdade.

  O gar?om se aproximou com um bloco na m?o.

  " O que ir?o querer?"

  Holland nem olhou o cardápio.

  "Três peixes fritos com batatas."

  Eu e Liz viramos a cabe?a ao mesmo tempo.

  " Você nem perguntou o que a gente queria " ela disse.

  " Eu conhe?o vocês " ele respondeu, empurrando o cardápio para o lado. " Alex come qualquer

  coisa desde que n?o esteja viva. E você sempre pede peixe."

  " Eu posso mudar " Liz rebateu.

  " N?o pode."

  " Posso sim."

  " N?o."

  Ela me olhou.

  "Eu posso mudar, né?"

  " Você já tentou pedir outra coisa três vezes " eu disse. " Sempre volta pro peixe."

  Ela ficou em silêncio por dois segundos.

  " Isso n?o é o ponto."

  " é exatamente o ponto " Holland sorriu.

  O gar?om anotou com um olhar paciente e se afastou.

  O restaurante estava cheio, mas confortável. Conversas baixas. Copos tilintando. Luz quente.

  Gente normal vivendo vidas normais.

  Estranho como aquilo parecia distante da nossa realidade.

  " Ent?o, Holland " comecei " a Rebecca me contou que você foi pro setor administrativo."

  Ele pegou o copo d'água e deu um gole antes de responder.

  " Fui. Promo??o lateral. Ar-condicionado, café grátis e menos chance de levar tiro."

  " Você odeia escritórios " Liz disse imediatamente.

  " Eu odeio morrer mais ainda."

  Ela inclinou a cabe?a.

  " Você tá mentindo."

  Ele suspirou.

  " Eu n?o usei minhas frases."

  " N?o precisa. Sua sobrancelha esquerda treme quando você mente."

  Ele levou a m?o à sobrancelha.

  " Isso é impossível."

  " N?o é."

  Eu apoiei o bra?o na mesa.

  " Foi por causa de Roma, né?"

  O sorriso dele n?o caiu de vez. Ele só enfraqueceu.

  " Foi, sim."

  Silêncio.

  Eu sabia que ele n?o gostava quando o silêncio ficava pesado demais.

  " Sabia " murmurei.

  Ele ficou olhando para o sal na mesa.

  " Eu calculei errado. Dois minutos. Dois minutos de diferen?a e ninguém teria morrido."

  Liz respirou fundo.

  " Holland, a opera??o foi sabotada."

  " E eu n?o vi."

  " Você n?o é onisciente."

  " Sou treinado pra ser quase."

  Eu olhei para ele.

  " Você salvou três agentes naquela noite."

  " N?o os que importavam."

  Aquilo saiu mais duro do que ele pretendia.

  Liz imediatamente respondeu:

  " Todo mundo importa."

  Ele a encarou.

  " Você fala isso porque n?o estava comandando."

  Ela n?o recuou.

  " N?o. Eu falo isso porque já estive do outro lado da decis?o."

  Ele sustentou o olhar por alguns segundos... depois desviou.

  " Prefiro papelada " murmurou. "Papel n?o sangra."

  O gar?om trouxe a comida e o cheiro de peixe frito preencheu o ar, quebrando a tens?o.

  Liz pegou o garfo, mas n?o come?ou a comer.

  " Alex " ela disse. " E você?"

  Eu mastiguei primeiro. Ganhei alguns segundos.

  " Eu t? funcionando."

  " Isso n?o é resposta."

  " é o que eu tenho."

  Holland limpou a boca com o guardanapo.

  " Ele matou um alvo protegido pela organiza??o e foi rebaixado. Eu chamaria isso de 'evento

  marcante'."

  Liz congelou.

  " Você foi rebaixado?"

  Eu fechei os olhos por meio segundo.

  " Obrigado, Holland."

  " O quê? Vocês dois odeiam quando eu escondo as coisas."

  Liz me encarava agora.

  " Por quê?"

  " Porque ele precisava morrer."

  " Precisava ou você precisava que ele morresse?"

  Ela n?o levantou a voz.

  Isso foi pior.

  " Ele tinha informa??o " ela continuou.

  " Informa??o n?o apaga o que ele fez."

  " E matar ele apagou?"

  Silêncio.

  Holland ficou quieto dessa vez.

  Eu respirei fundo.

  " Eu n?o me arrependo."

  Liz segurou meu olhar.

  " Mas também n?o tá em paz."

  Eu n?o respondi.

  Ela chamou o gar?om.

  " Uma cerveja."

  " Duas " Holland completou.

  Eu olhei para os dois.

  " Vocês sabem que eu t? tentando parar."

  " Você pode ficar na água " Holland disse. " Ninguém aqui tá competindo."

  Liz ergueu o copo quando as bebidas chegaram.

  " Por quem voltou."

  Holland levantou o dele.

  " Por quem ainda está aqui."

  Eles me olharam.

  Eu levantei meu copo de água.

  " Por quem a gente n?o conseguiu salvar."

  O brinde foi extraordinário.

  Uma hora depois, tudo estava mais leve.

  Holland já estava no modo 'histórias absurdas'.

  " Vocês n?o fazem ideia do inferno que é aprovar muni??o especial. S?o três formulários, duas

  assinaturas e um cara chamado Nigel que odeia todo mundo.

  " O Nigel que parece um hamster triste? " perguntei.

  " Ele mesmo."

  Liz come?ou a rir.

  " Eu amo que a organiza??o secreta mais perigosa do continente dependa de um hamster

  deprimido."

  " Ele controla or?amento " Holland disse. " Ele é mais perigoso que qualquer atirador."

  Liz já estava na terceira cerveja.

  O rosto levemente corado. O riso mais solto.

  " Se meu pai estiver mesmo em Roma " ela disse " eu vou até lá e arrasto ele pela orelha."

  " Quero assistir " Holland respondeu.

  " Eu consigo."

  Ela apontou pra mim.

  " Alex vai comigo."

  " Eu oficialmente n?o me meto mais em Roma."

  " Mentiroso " Holland murmurou.

  Ela se inclinou para mais perto.

  " Você iria."

  Eu hesitei um segundo.

  " Eu iria."

  Ela sorriu satisfeita.

  Quando levantou para ir ao banheiro, quase perdeu o equilíbrio.

  Eu segurei o bra?o dela.

  " Ei. Devagar."

  " Eu t? perfeitamente equilibrada."

  Ela tentou andar em linha reta. Falhou miseravelmente.

  Holland riu.

  " Acho que alguém passou do ponto."

  " Cala a boca " ela respondeu, mas rindo.

  Do lado de fora, o ar frio ajudou um pouco mas n?o o suficiente.

  Holland chamou um táxi.

  " Eu moro pro outro lado. E claramente alguém aqui precisa de escolta nível presidencial."

  Liz estava apoiada em mim.

  " Eu consigo andar sozinha."

  Ela trope?ou no meio da frase.

  Eu segurei firme.

  Holland abriu a porta do táxi e me olhou sério por um segundo.

  Sem sarcasmo.

  " Cuida dela."

  " Sempre."

  Ele assentiu e entrou.

  O táxi partiu.

  Liz encostou a cabe?a no meu ombro.

  " Você... cheira a sabonete."

  " Tomei banho."

  " Eu percebi."

  " Isso normalmente é elogio."

  " é um ótimo elogio."

  Chamamos um carro.

  Durante o trajeto, ela ficou quieta.

  Depois de alguns minutos, murmurou:

  " Eu fiquei com medo."

  " Do quê?"

  " De você n?o voltar."

  Aquilo foi baixo. Quase um sussurro.

  " Eu sempre volto."

  " N?o promete coisas que você n?o controla."

  Olhei para ela.

  Mesmo bêbada, ela ainda era lúcida demais.

  Chegamos ao meu apartamento.

  Subi com ela devagar.

  Ela olhou ao redor quando entramos.

  " Seu apartamento é... bagun?ado."

  " Obrigado."

  " N?o foi elogio."

  Levei-a até o quarto.

  Ela sentou na cama e ficou me observando como se estivesse tentando focar.

  " Você parece mais cansado do que admite."

  " Você parece mais bêbada do que admite."

  Ela sorriu.

  Eu ajoelhei para tirar os sapatos dela.

  Ela segurou meu pulso.

  " Você voltou."

  Dessa vez, n?o tinha riso.

  " Voltei."

  " N?o some de novo sem falar comigo."

  N?o era ordem.

  Era medo.

  " Eu vou tentar."

  Ela me puxou levemente pela camisa.

  " N?o tenta. Faz."

  Fiquei em silêncio.

  Ela soltou.

  Deitou.

  " Você é um idiota... mas é o meu idiota favorito."

  " Isso foi ofensivo."

  " Foi carinhoso."

  Em menos de um minuto, ela dormiu.

  Eu fiquei ali, observando.

  O peito dela subindo e descendo devagar.

  O mundo lá fora era caos.

  Ali dentro... era silêncio.

  Apaguei a luz.

  Fechei a porta.

  Deitei no sofá.

  Miss?es eram simples.

  Alvos. Estratégia. Resultado.

  Pessoas...

  Pessoas eram a parte difícil.

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