N?o como desabamento, como decis?o.
A casa ficou para trás sem protesto. Nenhuma parede tentou impedi-lo. Nenhuma porta fingiu existir. Ribeiro desceu porque o abaixo aceitou.
O ar mudou primeiro. Mais denso. N?o pesado, organizado. Como se alguém tivesse decidido, há muito tempo, qual quantidade de silêncio era aceitável ali.
A escada acabou em algo que n?o combinava com o resto do mundo.
Metal.
N?o oxidado. N?o vivo. N?o respirando.
Uma caixa encaixada no vazio, com linhas duras demais para serem naturais e limpas demais para serem recentes. Portas seladas. Nenhuma inscri??o externa. Nenhuma tentativa de parecer antiga.
Ribeiro parou.
— …que porra é essa?
A névoa n?o se espalhou. N?o reagiu como faria diante de algo hostil. Ela se contraiu — n?o por medo, mas por reconhecimento torto.
— "Entre."
A palavra n?o veio como som. Veio como certeza deslocada.
— Isso n?o parece… nada.
— "N?o é “nada”. é um meio."
As portas da caixa se abriram sem ruído. Dentro, espa?o justo. Sem bot?es visíveis. Sem símbolos.
— E como isso funciona?
A névoa se acomodou em volta dele, n?o como prote??o, mas como m?o em ombro.
— "Quanto você quer descer?"
Ribeiro pensou por um instante. N?o em metros. Nem em andares.
— Até onde pararam de fingir que sabiam o que estavam fazendo.
Houve uma pausa. Curta demais para ser hesita??o, longa demais para ser automática.
A caixa fechou.
O mundo caiu, sem movimento.
A sensa??o n?o foi de descida, mas de subtra??o. Camadas sendo retiradas. Como se o planeta estivesse sendo desfolhado por dentro.
Quando as portas se abriram, o espa?o n?o era pequeno.
Era demais.
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Corredores se estendiam em todas as dire??es, alinhados com uma precis?o que feria o olhar. Salas. Muitas salas. Fileiras delas. Algumas apagadas. Outras iluminadas por uma luz neutra, que n?o aquecia nem esfriava.
Ribeiro deu um passo para fora.
Depois outro.
— …ok.
Cada sala tinha uma placa simples, metálica, gravada sem ornamento:
EXPERIMENTO No: 12
EXPERIMENTO No: 47
EXPERIMENTO No: 103
Os números cresciam rápido demais para acompanhar.
Ele andou.
Passou por portas seladas. Por portas quebradas. Por portas abertas demais. Em algumas, havia marcas no ch?o, n?o de luta, mas de uso. Em outras, nada. Vazio completo, como se nunca tivessem sido tocadas.
— Isso... Isso aqui n?o é ruína
Murmurou.
— é abandono seletivo.
A névoa n?o contestou.
O número subiu até perder o sentido linear.
Quatro dígitos. Depois símbolos estranhos de ordena??o. Depois graus.
Até que ele parou.
EXPERIMENTO No: 8192°
A porta estava aberta.
A sala… n?o.
N?o no sentido físico.
As paredes tinham rachaduras que n?o seguiam estrutura alguma. O ch?o estava quebrado para dentro, como se algo tivesse tentado sair, ou entrar, sem sucesso. No centro, uma cápsula inclinada, de material translúcido, grande o suficiente para uma pessoa.
Vazia.
Uma mesa de experimentos ocupava o lado esquerdo. Objetos espalhados, alguns danificados, outros intactos demais para aquele lugar.
Ribeiro se aproximou.
Havia três itens.
Ele tocou o primeiro, algo organico, envolto em uma película quase invisível. Pulsava lento, como um cora??o que ainda n?o decidiu se vale a pena bater.
No instante em que seus dedos fecharam, o ar à frente dele se organizou.
N?o como voz. N?o como vis?o.
Como registro.
Item épico obtido:
óvulo do Espírito da água
Ribeiro franziu o cenho.
— Espírito… da água?
A névoa ondulou, inquieta.
— "N?o é um espírito."
— "é um come?o."
Ele pegou o segundo item.
Uma seringa. Transparente. Simples demais. Nenhuma marca. Nenhuma indica??o de volume máximo. A agulha n?o refletia a luz corretamente, como se n?o concordasse com o conceito de superfície.
Outro registro.
Item Raro obtido:
Seringa que Tudo Coleta
Capaz de extrair material genético, essencial ou conceitual de qualquer alvo.
— Conceitual?
Ribeiro soltou uma risada curta.
— Claro. Por que n?o? Né...
Ele deixou o terceiro item na mesa. N?o por prudência. Por intui??o errada demais para ser ignorada.
Se virou para a cápsula.
Por dentro, havia marcas. N?o de conten??o. De adapta??o. Ajustes sucessivos. Tentativas empilhadas.
— Aqui… alguém entrou...
A névoa n?o respondeu de imediato.
Vários entraram.
— E nenhum saiu inteiro...
Alguns saíram.
A maioria continuou.
Ribeiro respirou fundo.
O número da sala ecoava na cabe?a dele. 8192. Uma potência. Uma repeti??o de duplica??es. N?o um valor aleatório.
— Isso n?o é o fim da linha
Disse.
— é o ponto onde eles pararam de contar pessoas e come?aram a contar resultados.
A cápsula permaneceu vazia.
Mas, por um instante, Ribeiro teve a certeza desconfortável de que ela o reconhecia.
E, pior ainda…
…de que estava esperando.

