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80.1. Negação

  O mundo n?o estava mais inteiro quando Ribeiro percebeu.

  Ele n?o corria num lugar.

  Corria entre vers?es.

  Ele alternava entre eles rápido demais.

  N?o por escolha.

  Por necessidade.

  Cada salto arrancava algo pequeno: um reflexo, uma no??o de distancia, a certeza de onde o ch?o come?ava. O corpo aguentava porque ainda lembrava como. A mente n?o acompanhava. O filtro gritava tarde. A névoa se esticava, rasgando-se para manter coerência mínima.

  Noxyt n?o falava.

  N?o porque n?o sabia.

  Porque n?o havia como avisar em tempo útil.

  O mundo aceitava aquilo.

  Aceitava rápido demais.

  As anomalias, semideuses ainda sem nome completo, n?o perseguiam. Elas ocupavam. Onde surgiam, o espa?o parava de discutir possibilidades. Regras ficavam mais simples. Brutas. Funcionais.

  Ribeiro sentiu isso quando tentou atravessar um beco e o beco decidiu existir antes dele chegar.

  O impacto foi seco.

  N?o dor.

  Corre??o.

  Ele ricocheteou para o Plano B por reflexo. O intervalo o engoliu como água gelada. N?o havia cima nem baixo, só dire??o. Ele escolheu qualquer uma.

  Saiu do outro lado ainda correndo.

  Foi aí que algo apareceu na frente dele.

  N?o surgiu.

  N?o chegou.

  Estava.

  Asbak ocupava o caminho como quem ocupa um clima.

  Stolen story; please report.

  Ribeiro n?o viu direito.

  Os olhos n?o focavam mais em continuidade. A figura oscilava: menino magro, velho curvado, algo entre carne e fuligem. O casaco branco respirava como um órg?o externo. O ar ao redor fervia sem subir temperatura, calor sem número.

  Ele continuou.

  N?o por bravura.

  Porque parar exigia uma decis?o clara, e isso ele já n?o tinha.

  O ch?o mudou.

  N?o cresceu.

  N?o prendeu.

  Perdeu permissividade térmica.

  A grama ao redor cristalizou em pontos impossíveis, rígida demais para dobrar, mole demais para quebrar. Cada fio virou obstáculo porque n?o aceitava troca de energia. O movimento de Ribeiro desacelerou sem aviso, como se alguém tivesse desligado a fric??o correta do mundo.

  Ele trope?ou, n?o caiu.

  Algo segurava.

  Asbak inclinou levemente a cabe?a.

  A boca se moveu.

  Ribeiro n?o ouviu nada.

  Mesmo assim, algo atravessou.

  A surdez dele n?o impedia aquilo. Nunca impediu. A fala n?o era som. Era declara??o. Um registro antigo sendo relido em voz alta.

  Noxyt reagiu.

  O filtro abriu à for?a, rangendo como estrutura velha.

  “Ele está proclamando.”

  Ribeiro sentiu o significado antes das palavras.

  


  “Olá, mam?e.

  "Parece que você quebrou o nosso contrato.”

  A névoa se contraiu por reflexo antigo. Algo dentro de Ribeiro tentou negar. N?o por lógica, por memória que n?o lembrava.

  


  “Parece que ele nunca existiu.”

  Asbak n?o acusava.

  Constatava.

  


  “Mas seus ossos n?o mentem.”

  O mundo ao redor respondeu. N?o com violência. Com aceita??o. A presen?a de Ribeiro ali ficou… opcional.

  


  “Bom.”

  Pausa curta.

  Gentil demais.

  


  “Vim cobrar os termos.”

  Noxyt tentou intervir. N?o contra Asbak, contra o tempo.

  “Ribeiro.”

  O nome veio atrasado.

  Ele n?o respondeu. N?o porque n?o quis. Porque o Plano B já estava chamando.

  Num movimento rasgado, sem elegancia, Ribeiro transitou.

  N?o fugiu de Asbak.

  Saiu do eixo onde ele estava sendo lido.

  O mundo virou montanha.

  Ar mais rarefeito. Menos ruído. Menos variáveis. Rocha exposta, vento simples. Um lugar que ainda n?o tinha sido recalculado naquele contexto.

  Ribeiro caiu de joelhos.

  Ali, o peito abriu espa?o.

  Ali, o corpo lembrava como respirar sem negociar cada molécula.

  Paz.

  Tranquilidade.

  A ilus?o de que ainda havia tempo para pensar.

  Noxyt se recomp?s dentro do filtro, silencioso demais.

  A névoa se assentou como quem reconhece um hábito antigo.

  Ribeiro fechou os olhos.

  Tentou organizar um plano.

  N?o percebeu que aquela calma n?o era prote??o.

  Era atraso.

  E o sistema, em algum lugar, já estava caminhando até ali,

  n?o para persegui-lo,

  mas para terminar a leitura.

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