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VOL 1 - CAP 12

  Mundo Louco

  O som n?o veio de um despertador, mas do barulho seco e rítmico de madeira contra madeira vindo do pátio abaixo. Abri os olhos, meu cora??o disparou como se eu ainda estivesse na carruagem esperando um ataque. O teto alto do quarto, banhado por uma luz fraca do amanhecer, levou alguns segundos para fazer sentido na minha mente. Eu n?o estava mais na floresta.

  Suspirei fundo, senti um alívio.

  Meus pais ainda dormiam, seus rostos pareciam mais velhos sob a luz fraca. Levantei-me sem fazer barulho. Senti fadiga e cansa?o por causa da viagem e a adrenalina tinham deixado um rastro de rigidez no meu corpo. Ao me aproximar da janela, vi a silhueta de Elara lá embaixo. Ela já estava ativa, se movendo com uma fluidez assustadora, brandindo uma espada de treino contra um boneco de palha e madeira que parecia estar prestes a se desintegrar.

  — Ela n?o dorme? — murmurei para mim mesmo, sentindo um nó no est?mago.

  Tirei minhas roupas e vesti as roupas que Juditte havia deixado. Eram de boa qualidade, mas feitas para movimento. Eu precisava descer. Se eu me atrasasse, daria a ela mais um motivo para me tratar como um peso morto. Ao cruzar o corredor silencioso e descer as escadas de mármore, percebi que n?o éramos os únicos acordados.

  Lá fora, a neblina da manh? cobria o ch?o como um manto fantasmagórico. Elara parou o golpe no ar assim que meus pés tocaram o cascalho do pátio. Ela se virou, o suor brilhando em sua testa apesar do frio, e exibiu aquele sorriso de quem já havia vencido a luta antes mesmo dela come?ar.

  — Atrasado, "jovem nobre" — disse ela, jogando uma espada de madeira pesada na minha dire??o. — Vamos ver se você é t?o bom com as m?os quanto é com a língua.

  O peso da espada de madeira era maior do que eu esperava, olhei para a Elara, ela estava em uma pose estranha meio abaixada e com a espada na frente do rosto.

  — NOSSO TREINO COME?A AGORA!! — Gritou Elara com uma express?o assustadora.

  Elara deu um passo e chegou até mim me atacando por cima, me abaixei e consegui desviar pulando para esquerda, estava no ch?o mas empunhei a espada corretamente e mais uma vez defendi um ataque vindo por cima em minha dire??o, revidei com um movimento horizontal reto segurando firme na espada, ela pulou e me deu um chute, cai para trás com a for?a do chute, n?o conseguia acompanhar a velocidade de Elara. Ela n?o estava treinando; ela estava ca?ando. Antes que pudesse me levantar, vi a ponta da espada de madeira descendo em dire??o ao meu peito com uma for?a desproporcional. Ela ia me machucar de verdade.

  Fechei os olhos por um reflexo estúpido, esperando o impacto que provavelmente quebraria uma costela.

  Mas o golpe n?o veio.

  Ouvi apenas um som seco, como um chicote estalando no ar. Abri os olhos e meu queixo caiu. A espada de madeira de Elara estava parada a centímetros do meu peito, mas n?o por vontade dela. Uma m?o com apenas três dedos longos e fortes, segurava a lamina com firmeza absoluta.

  Eu n?o conseguia acreditar no que estava vendo. à minha frente, agachado em uma postura relaxada, estava um sapo. Mas n?o um sapo comum. Ele tinha quase a altura de um homem baixo, vestia uma cal?a até o joelho e um pano envolta da cintura e faixas na canela.

  — A for?a de um golpe deve ser medida pela necessidade, n?o pelo ego, pequena mestre — disse a criatura.

  A voz dele era grave e rouca, como se tivesse areia na garganta. Ele soltou a espada de Elara, que recuou um passo, visivelmente irritada, mas estranhamente respeitosa. O ser se virou para mim. Seus grandes olhos amarelados me analisavam.

  — Você é o filhote do Theron? — perguntou ele, inclinando a cabe?a de lado. — Esperava alguém... menos desengon?ado. Eu sou Gadier. E, pelo visto, vou ter muito trabalho para transformar você em algo.

  Eu continuei paralisado no ch?o, o cora??o batendo na garganta. Um sapo. Um sapo que andava em duas pernas, usava roupas, movia-se como um raio e, por cima de tudo, falava. Esse mundo estava ficando cada vez mais louco.

  — Um... um sapo? — A palavra escapou da minha boca antes que eu pudesse conter.

  Gadier soltou um som que parecia uma risada, profunda e seca.

  — Um sapo? — ele repetiu, dando um passo saltado na minha dire??o, ficando cara a cara comigo. O cheiro dele era de mato úmido e chuva. — Sou um batedor das sombras, garoto.

  — Um batedor das sombras ? — Perguntei confuso.

  — Ele é um bastardo, Gadier! — protestou Elara, batendo com a espada de madeira na própria coxa, irritada. — Ele nem sequer sabe segurar a espada direito! Meu pai está perdendo tempo.

  — Ele sobreviveu aos Goblins de Manta Vermelha, pequena mestre. Você sobreviveu apenas a bonecos de palha e a servos que têm medo de te machucar. — O sapo voltou a me encarar. — Levante-se, filhote de Theron. O café da manh? só é servido para quem consegue ficar de pé.

  Ele estendeu a m?o pegajosa e forte. Eu a segurei, sentindo a pele fria e áspera. Ao ser puxado, percebi que ele n?o tinha apenas for?a; havia algo a mais, uma press?o no ar que emanava dele.

  — O que vamos fazer? — perguntei, tentando limpar o cascalho da minha roupa nova.

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  — O que vamos fazer? — Gadier repetiu minha pergunta fazendo uma espécie de beicinho. — Vamos testar se o filhote do Theron e a pequena mestre conseguem ao menos sujar minhas cal?as. Os dois contra mim. Se conseguirem me tocar uma única vez com essas espadas de madeira, o treino acaba.

  Elara nem esperou ele terminar. Soltando um grito de frustra??o, ela partiu para cima. Eu tentei acompanhá-la, mas meu corpo parecia pesado e desengon?ado perto da velocidade dela. Tentei me posicionar à esquerda enquanto ela atacava pela direita, mas n?o tínhamos ritmo. Eu acabei entrando no caminho dela, e quase fui atingido pela sua espada de treino.

  — Sai da frente, seu idiota! — Elara rosnou, recuperando o equilíbrio.

  Gadier nem parecia estar se esfor?ando. Ele se movia com pequenos saltos e precisos, desviando das investidas de Elara com movimentos mínimos de cabe?a e tronco. Quando eu tentava um golpe horizontal, ele simplesmente saltava por cima de mim, fazendo-me cortar apenas o ar da neblina. Eu me sentia como se estivesse tentando secar o oceano com uma colher.

  Eu estava ofegante, o suor escorrendo pelo rosto, vi Gadier no meio do pátio, ele estava de costas para mim e de frente para Elara. Tentei uma investida desesperada ao mesmo tempo que Elara tentava um corte seco na horizontal. Foi o nosso erro fatal. Gadier deu uma investida para o lado, desviando de nós dois. Por sermos descuidados, quase colidimos um com o outro.

  Gadier viu a abertura.

  Gadier n?o desperdi?ou o f?lego com palavras. No momento em que nossos ataques quase se chocando e nossa guarda se abrindo pela confus?o, ele se moveu. N?o foi um salto alto ou um golpe cinematográfico foi pura eficiência.

  Gadier deu uma investida pelo cascalho antes que eu pudesse levantar minha espada, senti um impacto seco e firme na parte de trás do meu joelho. Minha perna cedeu instantaneamente. Enquanto eu caía, vi na minha frente o que aconteceu com Elara. Com um movimento sutil de corpo, ele desviou da lamina dela e desferiu um chute na barriga de Elara.

  O resultado foi um baque duplo.

  Eu caí de cara no cascalho, sentindo o gosto da poeira, enquanto Elara foi lan?ada para ao lado ao contrário, rolando até parar de costas, bufando de ódio e surpresa. Minhas m?os ardiam pelo contato com as pedras pequenas. Gadier nem sequer tinha mudado sua express?o. Sentia que ele estava parado exatamente ao meu lado, provavelmente me olhando com aqueles olhos amarelados que nunca piscavam.

  — Vocês n?o est?o lutando contra mim — disse Gadier, a voz rouca cortando o silêncio do pátio nebuloso. — Est?o lutando um contra o outro. Elara ataca como se estivesse sozinha no mundo, e você, Kaelen... você se move como se tivesse medo de ocupar espa?o. — Continuou Gadier — Você é lento,previsível e descoordenado Kaelen.

  Ele caminhou até o centro, ficando entre nós dois enquanto tentávamos nos levantar.

  — Em uma guerra real, os dem?nios n?o esperam você pedir licen?a para o seu parceiro. Se vocês n?o aprenderem a ser um só em batalhas, a única coisa que v?o conseguir coordenar é o dia do próprio funeral.

  Elara se levantou de um salto, limpando a sujeira da bochecha com as costas da m?o, os olhos faiscando. Eu, por outro lado, apenas olhei para as minhas m?os sujas. Gadier estava certo. Meu corpo precisava aprender a reagir ao ambiente, e o ambiente agora incluía um sapo estranhamente forte e uma garota idiota.

  — Já vi que o problema de vocês n?o é falta de for?a, é excesso de individualismo — disse o sapo, cruzando os bra?os. — A partir de amanh?, quando o sol nascer, quero vocês aqui. A rotina de vocês será essa até que eu decida que vocês pararam de se mover como duas galinhas tontas.

  Gadier nos encarou e fez um gesto para que chegássemos perto.

  — Prestem muita aten??o. — come?ou a estranha criatura. — Se querem sobreviver à amea?a que está vindo, v?o seguir a minha ordem, e seguir a rotina. Se um falhar, os dois pagam.

  — Primeira Etapa, vocês acordar?o antes do sol. O treino será por conta própria, e sem mim. Primeiro vocês dois come?aram o dia correndo o pátio três vezes. Depois vou passar exercícios onde um n?o pode respirar sem que o outro ajude. Se eu chegar aqui e um de vocês estiver no ch?o, os dois ser?o punidos.

  N?o entendi direito essa primeira etapa, um n?o pode respirar sem que o outro ajude ? Como assim ?

  Levantei minha m?o em duvida.

  — Diga filhote de Theron — Disse Gadier.

  — Estou em dúvida sobre a primeira etapa. — falei

  Gadier cruzou os bra?os e inclinou a cabe?a

  — Duvida em o que exatamente ? — Disse o sapo.

  — Sobre a última parte, sobre respirar sem o outro ajudar — Disse.

  Gadier me encarou

  Será que essa pergunta n?o foi adequada ?

  — Tsc! — Gadier deu um estalo alto com a língua, e continuou — Ele caminhou até mim e se inclinou, seu rosto úmido e frio parando a poucos centímetros do meu. Seus olhos frios, o que tornava o olhar dele intimidador.

  — O que eu quis dizer, filhote, é que o campo de batalha é um pulm?o — explicou ele, a voz ainda mais rouca. — Se a Elara ataca sem você cobrir a retaguarda dela, ela fica sem ar. Se você se defende sem que ela afaste o perigo, você sufoca. Vocês s?o dois corpos, mas a partir de amanh?, o f?lego terá que ser o mesmo. Se um se cansa, o outro sustenta. Se um erra o tempo da respira??o, a lamina do inimigo corta a garganta dos dois. Entendeu agora?

  Engoli em seco. Ele estava falando de sincronia dos movimentos, de uma conex?o que eu ainda n?o conseguia imaginar ter com alguém como a Elara, n?o sei se é capaz de ter alguma sincronia com aquela garota.

  Ela é ignorante, chata e muito veloz, n?o consigo acompanhar nada do que ela faz, isso é algo que vale se preocupar.

  — Entendi — respondi baixo.

  Gadier bufou e se afastou.

  — ótimo. Agora continuem ouvindo, porque eu n?o vou repetir a segunda etapa. Após o treino matinal, café e descanso. Comam para nutrir, n?o para se empanturrar.

  Ele fez uma pausa e olhou para a neblina que come?ava a se dissipar.

  — A terceira etapa é que a brincadeira acaba. Esque?am o pátio limpinho. Pantano, floresta, combate no escuro, resistência física extrema, vou ca?ar vocês dois até que aprendam a se mover nas sombras. Cada tarde será um pesadelo diferente.

  Engoli seco.

  N?o estou preparado para esses treinos, o que devo fazer? Vou morrer no primeiro treino que iremos fazer, meu corpo n?o aguenta. Comecei a me tremer, n?o é possível que vou morrer logo agora.

  — E por fim. A Quarta Etapa, onde a noite é para medita??o e sono. Se eu pegar algum de vocês tentando bancar o herói e treinando escondido à noite, dobro a carga do dia seguinte.

  Gadier virou as costas e come?ou a andar e dar pequenos saltos em dire??o à porta de entrada da mans?o.

  — Agora v?o. Juditte deve estar com as toalhas. Amanh?, se eu n?o ver vocês dois correndo antes do primeiro raio de sol, o café de vocês será barro e água suja.

  Olhei para Elara. Ela estava com o rosto vermelho de ódio, mas n?o disse uma palavra. O silêncio entre nós era pesado. Eu sabia que, a partir de amanh?, minha vida seria um inferno em forma de rotinas e treinos, e o pior de tudo, eu teria que confiar a minha vida à garota que, até cinco minutos atrás, quase abriu um buraco no meu corpo.

  Elara deu as costas sem dizer uma palavra, eu a observei entrar na mans?o, fiquei sozinho por um momento sentindo o ar úmido e a dor dos meus joelhos esfolados.

  Olhei para minhas m?os sujas

  Eu estou com medo, o medo estava revirando meu est?mago, neste mundo louco, a única forma de n?o ser devorado pelos inimigos era me tornar mais forte que a amea?a.

  Caminhei em dire??o à entrada e antes de cruzar a porta, olhei uma última vez para o pátio vazio. Eu n?o sabia se conseguiria acompanhar Elara, ou se Gadier realmente nos transformaria em "um só", mas de uma coisa eu tinha certeza. Eu n?o ficarei para trás.

  Subi os últimos degraus com os joelhos esfolados, deixando o rastro do meu primeiro fracasso no ar. O treino de hoje foi apenas um aviso de que eu n?o era mais um convidado, mas uma pe?a em um tabuleiro de guerra. Enquanto a luz da manh? iluminava o quarto, percebi que minha vida dos sonhos tinha se tornado um sonho distante.

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