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6.Sealed Destiny

  "Finalmente…"

  O comandante — o mesmo que havia examinado o cadáver da mulher mais cedo — soltou um longo suspiro, visivelmente exausto.

  "Droga... já está escurecendo e só encontramos o segundo corpo agora? Estamos horas atrasados."

  "Desculpe, senhor. Antes de sucumbir, o escravo vagou por vários quil?metros para longe desta área", explicou o primeiro dos três guardas, levando a m?o ao peito em sinal de continência.

  O comandante tirou o chapéu e co?ou o couro cabeludo, irritado.

  "Miles? Argh... por que diabos se dar a todo esse trabalho para resgatar alguém que morreu a quil?metros de distancia?"

  Os três aspirantes a oficiais trocaram olhares, confusos, como se tivessem acabado de ouvir a pergunta mais óbvia que se possa imaginar.

  "Senhor", disse novamente o do meio, "de acordo com os protocolos especiais atribuídos a este tipo de miss?o—"

  "Sim, sim", murmurou o comandante, interrompendo-o. "Vocês todos sabem que eu n?o leio esse tipo de coisa. Enfim... movam-no. Levem-no para o compartimento especial."

  "Ei, chefe!" gritou o policial ao meu lado na dire??o deles, chamando a aten??o.

  "Hum? O que foi, Ford?" O comandante se virou para nós, encarando diretamente o escravo de cabelos brancos que conversava casualmente com um membro da equipe.

  "Há alguém aqui que precisa de exemplos."

  O corpo havia sido colocado no ch?o com um cuidado excessivo para algo que já n?o respirava.

  Os três guardas recuaram alguns passos, formando um semicírculo distante. Alertas, mas sem intervir. Nenhum deles parecia interessado em participar daquilo. Era como se soubessem que essa parte n?o era da sua al?ada.

  O comandante agarrou o cadáver pelo bra?o e come?ou a arrastá-lo em dire??o à caravana especial. O som abafado do corpo raspando na neve ecoou mais do que deveria.

  "Um exemplo de quê?", perguntou o comandante, ainda arrastando o corpo.

  N?o parecia uma pergunta de verdade. Mais como alguém decidindo por onde come?ar, como se já soubesse a resposta e estivesse simplesmente escolhendo qual doeria mais ouvir.

  Ford explicou meu comportamento ao comandante, juntamente com a pergunta inadequada que eu havia feito.

  Eu, por outro lado, n?o conseguia desviar o olhar do cadáver — envolto num pano branco já manchado. N?o era choque nem medo. Havia algo de errado naquilo.

  Essa suspeita só aumentou quando notei pequenas protuberancias, como fungos negros, rasgando o tecido e se espalhando pela neve ao redor.

  Como minhocas procurando um lugar para se enterrar.

  Poucos, discretos… mas impossíveis de ignorar.

  "Você ainda n?o respondeu à minha pergunta", eu disse.

  O comandante n?o respondeu imediatamente.

  Em vez disso, ele agarrou o corpo pelo pano e o jogou na carro?a diante de todos. O corpo caiu com for?a, fazendo a madeira ranger. Alguns dos condenados estremeceram. Outros continuaram observando.

  Ford colocou a garrafa de cerveja de lado e entrou na caravana. Depois de encarar o corpo por alguns segundos, ele falou.

  "N?o sabemos exatamente como funciona, garoto", disse ele, como alguém que repete algo que já ouviu muitas vezes. "Mas em cem por cento dos casos, todos que tentam fugir do seu destino depois de serem marcados acabam se tornando... isso."

  Ele deu um leve chute no corpo, o suficiente para fazê-lo rolar alguns centímetros.

  "Depois que morrem." Engoli em seco. "Todos, sem exce??o, que sobreviveram até agora conseguiram escapar deste lugar com vida", continuou o comandante. "E o mais estranho é que nunca foi por causas naturais."

  à primeira vista, essas palavras soavam irracionais. Para eles, no entanto, era um fato inegável.

  "Ent?o, o que te faz pensar que você seria diferente? Se quiser, podemos até deixar você escapar sozinho. Aí veremos quanto tempo você aguenta... antes de sucumbir."

  "Eu nunca disse que era diferente ou 'especial'", respondi. "E... isso?"

  Apontei para o cadáver.

  "Você o trata como um objeto." Fiz uma breve pausa. "E além disso... o que exatamente é essa marca?"

  O comandante suspirou, cansado, como se essa parte fosse inevitável.

  "Calma, garoto. Essas perguntas ser?o respondidas", disse ele, já se virando e perdendo o interesse. "Muito em breve."

  Os três guardas logo os seguiram, levando o corpo consigo. Tudo o que consegui dizer em resposta foi:

  "…Espero que sim."

  Ford me observou em silêncio por alguns segundos. N?o era pena nem hostilidade. Era aquela aten??o inc?moda de alguém tentando encaixar uma pe?a que n?o pertencia ao lugar.

  "Engra?ado", murmurou ele. "Você faz perguntas como se tudo isso fosse novidade para você."

  Ele repousou a m?o no punho da espada, mais por hábito do que por amea?a.

  "Já acompanhei todo tipo de gente. As que choram. As que gritam. As que tentam barganhar..."

  Uma breve pausa.

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  "E aqueles que fingem que n?o se importam." Seu olhar voltou para mim. "Talvez seja isso que esteja te incomodando. N?o o que está acontecendo... mas o fato de que, pela primeira vez, n?o está acontecendo com outra pessoa."

  Outra pausa, desta vez interrompida por um chamado vindo do centro da clareira.

  "Ou talvez n?o. Você n?o vai me dizer que isso é remorso agora, vai?"

  Ele n?o esperava uma resposta e n?o a recebeu. Os demais condenados voltaram a cuidar de seus próprios afazeres assim que perceberam que o espetáculo havia terminado.

  Um silêncio profundo pairou sobre a caravana. Uma sensa??o estranha come?ou a crescer dentro de mim como um tumor, algo que eu n?o conseguia descrever. Por mais que eu tentasse ignorá-la, ela continuava crescendo, cada vez mais.

  Ent?o veio o corte.

  A frase surgiu na minha mente, como algo que só eu podia ver, n?o ouvir.

  Levei a m?o ao peito, ainda sentindo aquela estranha sensa??o se espalhando por dentro de mim, como algo crescendo onde n?o deveria.

  N?o soava como uma amea?a direta. Nem como um aviso comum. Parecia mais uma narra??o fria, como se estivesse apenas descrevendo o que já estava acontecendo comigo.

  Ent?o veio a press?o. N?o dor. N?o violência. Mas um aviso tardio, demasiado pesado para ser ignorado.

  O significado da frase veio completo, sem margem para interpreta??o.

  Meu corpo reagiu antes da minha mente. Um passo hesitante. Minha respira??o falhou por um segundo. O mundo ao meu redor pareceu distante, como se eu tivesse sido puxada para dentro.

  "Marcados!" a voz do comandante cortou o ar. "Todos para fora. Agora."

  Fomos reunidos à for?a do lado de fora das carro?as. N?o com gritos ou violência, mas com presen?a. Soldados se posicionaram ao nosso redor, sufocando qualquer ideia de fuga antes mesmo que ela pudesse surgir. O comandante estava à frente, postura firme, m?os atrás das costas, o olhar percorrendo cada um de nós como se contasse ferramentas, n?o pessoas.

  "Indivíduos acompanhados", come?ou ele, num tom que tentava soar solene para alguém que se dirigia a apenas dez pessoas. Falhou miseravelmente. "Eu sei que esta situa??o foi... abrupta. E sei que todos vocês querem respostas."

  Ele caminhava de um lado para o outro, com as m?os cruzadas atrás das costas, projetando a voz como se estivesse falando para uma pra?a lotada, n?o para um punhado de condenados que mal conseguiam ficar de pé.

  "O que está acontecendo agora n?o é um erro, nem uma puni??o improvisada. é uma decis?o. Uma opera??o formal, autorizada e necessária."

  Uma pausa calculada. N?o para respirarmos, mas para que as palavras se assentem.

  "Nós o chamamos de Sistema OMM."

  O nome pairou no ar com um baque. N?o parecia recente. Parecia ter sido planejado há muito tempo.

  "Durante anos, o governo dependeu exclusivamente de oficiais treinados, unidades especializadas e recursos internos. Poucos. Caros. Ineficientes para a dimens?o do problema", disse ele, erguendo o olhar e percorrendo nossos rostos como quem avalia ferramentas. "Isso mudou."

  Meus pensamentos come?aram a correr. Escala. Problema. Nenhuma dessas palavras se encaixava em "escravos" ou "criminosos comuns".

  "De agora em diante, vidas fora das institui??es oficiais também ser?o usadas. Vidas consideradas descartáveis ??pelo sistema..." um meio sorriso torto. "...mas ainda úteis."

  E foi isso.

  N?o éramos exce??es. éramos solu??es.

  "Você pode achar isso injusto", disse ele, dando de ombros. "Para mim, é uma oportunidade. Um propósito final. Lutar. Sobreviver. Servir. Ou morrer tentando."

  O discurso foi claro. Direto. Patriótico. Mas havia algo de errado. Muito errado.

  "Seu destino tem um nome", continuou o comandante, erguendo ligeiramente o queixo. "Tártaro."

  Nenhuma rea??o imediata. Nenhuma explica??o também. O nome foi mencionado como se isso por si só bastasse.

  "Um território além do controle direto do governo. Hostil. Instável. Um lugar onde as for?as comuns n?o sobrevivem por muito tempo", gesticulou amplamente, quase teatralmente. "é exatamente por isso que vocês est?o aqui."

  Era um nome familiar. Eu nunca fui à escola, nunca estudei a fundo a história do mundo, mas essa parte era impossível de esquecer. Duzentos anos atrás, portais se abriram por todo o planeta.

  Algumas surgiram aleatoriamente. Outras, em padr?es estranhamente organizados. A humanidade foi for?ada a se reorganizar, abandonando países e governos tradicionais em favor de reinos.

  Eu já tinha ouvido falar de opera??es que usavam soldados treinados para invadir esses portais, mas nunca imaginei algo assim. Como podiam usar escravos e pessoas "sem propósito na vida" para uma miss?o dessas? Pior ainda, o comandante deixou claro que, no futuro, até mesmo cidad?os comuns que desejassem "lutar pelo seu reino" seriam recrutados.

  Isso foi puro desespero por vidas.

  "Vocês n?o est?o sendo enviados como soldados convencionais", enfatizou ele. "A Opera??o Marcada existe para algo maior do que simples conten??o ou reconhecimento."

  Minha aten??o se agu?ou. Agu?ou-se em que sentido?

  "A nota que você recebeu", alguns engoliram em seco, "n?o é uma senten?a imediata. é uma ferramenta. Ela for?a a adapta??o. O crescimento. A ascens?o."

  Ele abriu os bra?os, como se estivesse fazendo uma promessa.

  "No Tártaro, sobreviver n?o é opcional. Mas aqueles que sobrevivem... mudam. Evoluem. Tornam-se algo além do que eram antes", um brilho quase fanático cruzou seus olhos. "O poder que lhe é concedido n?o é caridade. é um investimento."

  Agora tudo fazia muito sentido. Poder para os condenados. Recursos em excesso para meros escravos.

  "Você pode encarar isso como um castigo", disse ele, com um tom mais severo. "Ou como reden??o. Uma chance de servir ao mundo de uma forma que você jamais poderia aqui."

  Todos congelaram. Ninguém respondeu. Metade deles cerrou os dentes e continuou encarando o comandante. Alguns olharam para aquele "poder" com um brilho estranho nos olhos. O resto — eu — desviou o olhar. Fiquei olhando para o céu noturno, esperando para ver aonde tudo aquilo ia dar.

  A frase ainda estava lá, fixa na minha mente como uma lembran?a desagradável. Eu n?o tinha ideia se os outros — marcados como eu — tinham recebido a mesma mensagem, ou se era só comigo.

  "Ent?o…"

  O comandante fez uma pausa, um silêncio t?o profundo que silenciou qualquer pensamento disperso.

  Mas uma coisa era certa.

  "Vamos come?ar", anunciou ele.

  Algo grandioso estava por vir.

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