Um pesadelo se formava em minha mente. Vi algo semelhante a um livro branco sendo consumido, aos poucos, por uma escurid?o, até que o Cavaleiro da Luz surgisse ao final — mas agora, com sua armadura negra.
O medo me fez cair em um labirinto, onde as paredes eram cobertas por plantas espinhosas. Mika era puxada por correntes, arrastada pelas sombras dos meus antigos companheiros.
A cena dos meus amigos mortos se repetia incessantemente, e o peso do sangue de cada um se acumulava em minhas costas.
O cavaleiro pegou Mika pelo pesco?o e a transformou em cinzas.
— Por favor, me deixa tentar te salvar só mais uma vez!
Meus gritos faziam minha traqueia queimar, como se estivesse sendo cortada lentamente.
Mais uma vez, o medo trouxe meus traumas à tona. Fiquei paralisado, enquanto meus olhos se emba?avam pelas lágrimas.
As gotas que escorriam do meu rosto caíram no ch?o. Uma po?a refletiu o rosto dos meus amigos sendo mortos por minhas próprias m?os.
O Cavaleiro da Luz cravou sua espada em meu est?mago e me lan?ou contra a parede.
De repente, a mesma sala onde fui morto se refez ao meu redor.
Uma escada vermelha surgiu, e, no alto, uma porta se abriu. Uma mulher de roupas formais, olhos alaranjados em forma de estrela e cabelos castanhos desceu lentamente e me ajudou a levantar.
Ao redor de seu olho direito, havia um símbolo com quatro lados. As laterais se uniam formando uma espiral no centro. As extremidades pareciam setas para cima e para baixo, com pequenos sinais em cada ponta.
— Fico feliz em te conhecer, meu próximo seguidor.
A mulher estendeu a m?o para me cumprimentar, e assim o fiz. Seu sorriso se abriu, e a marca ficou ainda mais visível.
— E quem é você? — perguntei, limpando o sangue restante do meu rosto.
— Uma deusa que conhece todo o seu passado e presente. Sei que você sofreu enquanto se achava inferior a outros heróis.
— Meu nome é Vlémma, a pessoa gentil que acabou de te salvar. E, por sinal, tenho uma pequena proposta que talvez te interesse.
— N?o é como se eu estivesse em posi??o de negar alguma coisa.
— Eu vou te conceder minha marca e poder, e também permitir que leve suas memórias da última vida. O pre?o é carregá-las até sua morte.
— Ainda tem mais coisa pra falar, né? Desembucha logo.
Seu olho direito come?ou a brilhar enquanto encostava no meu ombro. Sua voz engrossou, e senti uma press?o me empurrando para baixo.
— é mais esperto do que parece, né? Você vai me conceder parte da sua alma e do seu corpo. Mas n?o pense que sou alguma tirana, por favor.
Confesso que suas palavras me deram um frio no est?mago. Mas prefiro dividir minha alma a morrer eternamente.
— Acho que n?o tem jeito... eu aceito.
— Mas também n?o ache que vou ser t?o boazinha com você.
Se você fosse "boazinha", n?o pediria minha alma. Zero novidades.
Apertamos nossas m?os em um acordo. Meu rosto queimava como brasa, meu interior se esvaziava, e a voz de Vlémma se misturava aos meus gemidos de agonia.
Mas... por que n?o me lembro do que aconteceu...?
Abri os olhos. Minhas m?os eram pequenas, e meu corpo, pesado. Estava envolto em um tecido macio que me fazia sentir extremamente confortável, junto ao travesseiro que apoiava minha cabe?a.
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Grandes cercas de madeira formavam o ber?o ao meu redor. Na parte superior das paredes, lamparinas com velas que n?o derretiam iluminavam suavemente o ambiente.
Ent?o, minha nova vida come?ou...
Uma voz reconfortante e suave come?ou a soar. Embora fosse um idioma completamente diferente do meu mundo anterior, eu entendia tudo o que ela dizia.
— Aila, seu irm?o acordou!
Uma garota de aproximadamente cinco anos veio correndo em minha dire??o, pulando de alegria.
— Já decidiu qual vai ser o nome dele, m?e?
— Sonno, da família Bjorny. O que acha?
— Vou chamar o papai, mas eu gostei!
Ent?o meu pai, um homem de cabelos castanho-médio, olhos verde-escuros e mais de um metro e noventa de altura, me levantou no ar.
— Você nasceu lindo mesmo, hein, Sonno. Mas esses olhos alaranjados... você puxou de quem?
Sua express?o de dúvida era hilária. A vontade incontrolável de rir me fez sentir melhor emocionalmente, depois de tanta coisa.
— Ele deve ser algum tipo de humano escolhido. Afinal, é meu irm?o.
— Será que ele vai seguir a carreira da mam?e?
— Um healer? Que nada! Ele vai guerrear igual o papai aqui!
N?o era só eu que ria. Meu pai também parecia uma crian?a enquanto me segurava no colo.
— Grannus, aproveita que está com tempo livre e compra as coisas que te pedi. Caso contrário, vai dormir no ch?o de novo!
— Já t? indo, madame Emma...
Aos poucos, fui adquirindo informa??es sobre minha família e o local onde vivíamos. Porém, a limita??o do corpo me fazia sentir cansa?o rapidamente.
Quase todas as manh?s, minha m?e me levava para o lado de fora da casa, para admirar a paisagem. Aila sempre vinha junto quando n?o tinha aula de magia.
O cenário era dominado por campos de planta??es fartas, a pequena e linda cidade de Tarachi e uma cordilheira de montanhas ao fundo.
Rios fluíam por toda a regi?o, desde as montanhas até os lagos próximos de casa. O clima n?o era extremamente frio nessa época do ano — era simplesmente ideal.
— Esperem um pouquinho sentados aqui, vou regar as plantas do jardim.
Aila me deixou em seu colo, entre seus longos cabelos castanhos. Ficamos deitados na grama.
— Ei, Sonno... posso te contar uma história?
Como se eu pudesse responder...
— Certa vez, o rei de uma terra distante estava defendendo seu território de muitos inimigos.
— Até ent?o, ele n?o era um fragmento, e a maioria dos governantes o amaldi?oou. Seu reinado era próspero, e suas terras, férteis — por isso, se tornaram alvo de na??es próximas.
— Mas um só deus chegou... e derrotou todos eles!
Minha irm? continuava a contar a história com os olhos brilhando de emo??o. Sua voz crescia a cada palavra, e ela me apertava cada vez mais forte.
— Esse deus continuou a aben?oar o rei, mas nunca respondeu nenhuma de suas perguntas.
— Seu nome ficou conhecido como "Deus da Observa??o"!
Dois anos se passaram. Fizemos diversas viagens em família, treinamentos de magia e muitas conversas. Embora eu n?o tivesse tido tanto tempo comparado à minha vida passada, criei uma forte rela??o com meu pai. Passei a vê-lo como um herói.
Minha vida era boa... até o dia em que guardas da realeza invadiram nossa casa.
Cerca de dez guardas armados arrombaram a porta principal e rapidamente algemaram meu pai com magia.
— Grannus!
Minha m?e e minha irm? gritavam o nome de meu pai, enquanto eram impedidas de se mover. Suas express?es de horror estavam cobertas de lágrimas.
— Seu vagabundo! Como ousa matar alguém da realeza?
Os guardas o socavam e chutavam, esmagando seu rosto contra o ch?o.
— Me escutem... eu n?o fiz nad—
Era impossível falar algo. Puxaram seu cabelo violentamente e cobriram sua boca com a sola dos sapatos.
— Deve ser algum mal-entendido! Meu marido nunca mataria alguém da realeza!
Quando minha irm? terminou de falar, apontaram uma espada para sua garganta para intimidá-la.
— é bom você também ficar quieta, ouviu, mocinha?
Eles v?o pagar...
Come?aram a derrubar as vidra?as dos armários e destruir os objetos. Quebraram cadeiras e simularam ferimentos em si mesmos.
Eu só podia assistir com os olhos arregalados e emba?ados pelo choro.
— Pa... pai...
— Esse lugar já tá me incomodando. Vamos dizer pro chefe que o alvo tentou nos atacar e acabou sujando nossas roupas.
— Entendido, comandante Soáu.
Os guardas se preparavam para sair, após roubarem algumas moedas sobre a mesa, quando meu pai disse suas últimas palavras para mim:
— Sonno... Aila... eu amo vocês...
— Prometam que n?o v?o se envolver nesse mundo de vida ou morte... por favor...
Me desculpe, pai.
Eu vou mandar cada um desses desgra?ados pro inferno!

