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Capítulo 7 - Memórias

  Mika, meu eu do passado, era uma pessoa feliz e animada, mesmo com os traumas de infancia que a fizeram fugir de casa ainda jovem.

  Ela vagou durante anos — passou pelo deserto mais quente até as montanhas mais frias, viveu na abundancia e na escassez. Certo dia, suas for?as acabaram. Ainda assim, insistiu em continuar sua caminhada.

  Até que n?o conseguiu mais andar.

  Estava perdida em uma vasta floresta, cercada por bestas selvagens, longe de qualquer cidade e próxima da morte. A fome corroía as paredes de seu est?mago, a sensa??o constante de ter seu interior queimando a levou a desistir da vida. A sede ressecava suas vias, e logo come?ou a ter alucina??es — via seu pai vindo em sua dire??o para agredi-la.

  — Por favor… n?o! — tentou gritar, mas o ar já n?o estremecia suas cordas vocais.

  Comerciantes passaram ao seu lado, mas todos pensaram que ela já estava morta, largada ao pé de uma grande árvore.

  Eles a ignoraram.

  Mas ainda havia esperan?a.

  Um grupo de oito pessoas usava aquela rota para uma miss?o de ataque. Apenas um deles correu até ela com todas as for?as que tinha.

  — Ei! Você consegue me ouvir? — perguntou o homem gentil, apoiando sua cabe?a com cuidado. — Peguem água e comida pra ela, rápido!

  Ele a alimentou e a fez beber. Depois, a colocaram sobre a carro?a que carregava os pertences do grupo. Ali, ela dormiu por um dia inteiro.

  Quando acordou, come?ou a comer mais do que seu corpo frágil aguentava — um bom sinal no início de sua recupera??o.

  Já haviam chegado à base do grupo, próxima a uma capital. Era um casar?o com quinze quartos — alguns usados como dormitórios, outros para guardar equipamentos.

  No grupo, havia outra mulher que ajudava Mika com os banhos em uma cachoeira isolada. A mulher antes largada agora estava linda novamente. Sua beleza era admirada sempre que passava pelas ruas do comércio.

  Para quem a conheceu à beira da morte, ela estava irreconhecível.

  Na verdade, todo o grupo — menos a outra mulher — havia partido em miss?o: estavam combatendo um drag?o mágico que assombrava um vilarejo. Essa viagem durou duas semanas. Enquanto isso, Mika ficou no casar?o, acompanhada apenas por sua cuidadora.

  Ent?o, todos voltaram.

  Ao ver o homem gentil que a havia salvado, Mika correu para abra?á-lo. Um sorriso iluminava seu rosto com a luz do sol.

  — Ainda n?o tive a oportunidade de perguntar, ent?o... qual é o seu nome? — disse, arrumando o cabelo atrás da orelha.

  — Yaso, suporte do grupo. Fico feliz que tenha se recuperado por completo em t?o pouco tempo — respondeu ele. — E o seu?

  — Pode me chamar de Mika — respondeu, apertando sua m?o. — Devo minha vida a você. Muito obrigada por me salvar… de verdade.

  Ambos se olharam profundamente.

  — Você sabe lutar, n?o é? — Yaso perguntou. — Sabe manusear uma espada?

  — Sim. Treino desde a infancia para me proteger do meu pai — disse com um tra?o de tristeza.

  — ótimo! — respondeu animado, o que a deixou confusa quanto à raz?o de sua alegria. — Me siga por um instante, por favor.

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  Yaso a levou para uma sala no terceiro andar do casar?o, completamente entulhada de objetos e armas. Ele entrou no meio da bagun?a e come?ou a procurar algo.

  — O que quer me mostrar? — perguntou Mika, curiosa, limpando a poeira de um móvel de madeira.

  — Você vai gostar! Pelo menos... eu acho — disse animado.

  Ent?o, retirou um pano de couro e ergueu uma espada ainda na bainha. A sala estava escura; mal se podia ver algo.

  — Achei! — gritou, pulando sobre o entulho até Mika. — Pegue. A partir de agora, é sua.

  Era, em teoria, apenas uma espada comum achada em uma masmorra abandonada — mas era linda como Mika. Brilhava como ouro, com detalhes refinados como tra?os artísticos.

  — Muito obrigada, Yaso — disse ela, emocionada, ao receber a espada.

  Ao retirar a lamina da bainha, um feixe de luz iluminou toda a sala — e até o corredor. Partículas douradas voavam ao redor da espada, subiam pelo bra?o de Mika e cobriam seu corpo inteiro, transformando sua roupa simples em uma armadura de guerra sofisticada.

  Era como o armamento de um grande general — algo forjado durante anos para ser perfeito.

  — O que é… isso? — perguntou Mika, agora revestida de metal. — é simplesmente incrível!

  — Parece que ela gostou de você — respondeu Yaso, sorrindo.

  — Quase me esqueci — disse ele, pegando algo do bolso. — Fique com isto.

  Era uma pulseira com um símbolo de cruz.

  — Seja muito bem-vinda aos Discípulos, Mika! — concluiu, sorrindo.

  Desde aquele dia, a garota sem sonhos criou um objetivo: permanecer ao lado de Yaso para sempre.

  Para isso, precisava se tornar forte. Ent?o, passou a treinar seus poderes todas as noites, em um campo desmatado próximo ao casar?o.

  Como n?o confiava em suas habilidades, preferia n?o mostrar seus ataques até atingir a perfei??o.

  Certa noite, Yaso saiu ao ouvir um barulho vindo da floresta. Encontrou Mika utilizando artes sagradas que iluminavam o ambiente a cada golpe.

  Admirado, passou a observar seus treinos todas as noites.

  — N?o consegue esconder sua presen?a? — perguntou Mika, notando-o em cima de um galho.

  Já haviam se passado meses desde o resgate.

  — Você repara demais na energia dos outros — respondeu, pulando para o ch?o. — Sempre tentei reduzir ao máximo, mas nunca consegui retrair tudo.

  — Seu poder é t?o grande que n?o consegue fazer algo t?o básico? — provocou Mika. — Vamos duelar aqui e agora.

  Yaso aceitou com facilidade. Deixou os equipamentos no ch?o e abriu sua base de combate.

  — Eu sou apenas um suporte — disse, ativando uma barreira.

  — Um dos mais habilidosos do mundo — completou Mika, tentando cortá-lo, mas sendo impedida pela barreira.

  Ele apenas esquivava com leveza.

  — Quanto tempo faz desde que me notou pela primeira vez? — perguntou Yaso, regenerando sua energia.

  — Ontem. Sua energia estava maior que o normal — respondeu, alternando golpes com espada e socos.

  — Acho que está um pouco atrasada, mas me sinto aliviado — disse ele, lan?ando um golpe de vento que a impediu de avan?ar.

  Até que segurou sua espada, puxou-a para perto e deu um leve peteleco em sua testa.

  — Por que está se segurando contra mim? — questionou Mika, irritada. Queria ser tratada com igualdade na luta.

  — Você ainda está melhorando — respondeu, sentando-se na grama. — Na próxima, prometo que n?o vou pegar leve.

  Era alta madrugada.

  — Olha como o céu está lindo hoje! — disse Yaso, apontando para as estrelas.

  Mika sentou-se ao seu lado. Juntos, observaram a aurora boreal e a grande lua iluminando a noite fria.

  Só que… n?o houve uma próxima vez.

  No dia em que eu iria me declarar para Yaso, partimos para uma miss?o em uma masmorra no Monte Místico. Meu plano era falar com ele ao entardecer, ao final da miss?o.

  Estava tudo indo bem.

  Nosso grupo havia se tornado o mais forte, com doze membros. O governo contratou os Discípulos para derrotar uma besta mágica.

  Mas a realidade era outra: o monstro era muito mais poderoso que qualquer coisa já vista. Nem mesmo todas as nossas habilidades reunidas foram capazes de arranhá-lo.

  Lembro da cena horrível de meus companheiros sendo mortos e decapitados por um cavaleiro de luz.

  Fui atingida no peito, fatalmente.

  Vi Yaso se arrastando até mim, segurando minha m?o no meio do caos.

  Lembro de um grande livro surgindo, mostrando todas as páginas da minha vida — tristes e felizes.

  Havia uma página em branco com um espa?o para assinatura. Ali, escrevi meu nome… e o de Yaso.

  Eu o amava mais do que todas as coisas.

  Meus olhos se fecharam.

  Um homem surgiu ao lado do livro, pegou a pena de minha m?o.

  Meus olhos se fecharam para sempre.

  Essa foi minha última vida. Uma vida com apenas um sonho… e um amor.

  — Parece que finalmente acordou — disse Sonno, sentado em uma cadeira. Estávamos em uma das salas de recupera??o médica da academia. — Você nos deixou preocupados, sabia?

  — Quem é bom! — exclamou Akrivís, segurando minha m?o com alegria. — Foram as horas mais demoradas da minha vida.

  — Que gentileza, hein… — resmunguei, tirando uma bolsa de gelo da testa. — Deve ter sido a press?o da batalha… ou aquele veneno que o Natsu usou.

  Algo n?o parecia certo.

  Desde pequena, fui diagnosticada com uma doen?a rara que afeta o cora??o.

  — Sonno… eu preciso conversar com você — falei, hesitante.

  Eu precisava contar tudo a ele.

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