A luta de Sonno foi incrível. Assistir a tudo de perto me fez lembrar de Yaso — imaginei-o como um dos lutadores, usando seus antigos golpes naquele grande coliseu.
Esse pensamento me animou para a minha batalha.
Akrivís também venceu, por desistência da adversária, que saiu da arena perfurada por diversas flechas. Assim que a luta de Sonno terminou, corri até ela.
— Você foi perfeita! — exclamei, abra?ando-a com for?a.
O abra?o a fez se contorcer um pouco de dor, além de derramar parte de uma po??o de cicatriza??o que ela estava tomando. Cheguei t?o abruptamente que a assustei.
— Muito obrigada! — respondeu, tomando o restante da po??o. — Foi bem difícil, mesmo sendo a primeira.
— Sonno conseguiu vencer? — perguntou, com curiosidade.
— Sim! — respondi com entusiasmo. — Você precisava sentir o clima que estava no col—
Antes que eu terminasse, um garoto alto, de cabelos vermelhos e físico semelhante ao de um gorila, interrompeu a conversa.
— Onde ele está agora? — perguntou, com uma voz grossa.
— Quem é você, grand?o? — retruquei, franzindo a testa.
— Responda à minha pergunta primeiro! — respondeu, irritando-se rapidamente.
Foi ent?o que me lembrei: eu o havia visto antes do início das batalhas, brigando com alguns alunos no port?o principal da academia.
— Olha… ele deve estar saindo do coliseu agora — respondi, educadamente, mas com um certo tom de desconfian?a.
Sem dizer mais nada, ele saiu correndo na dire??o que indiquei. Seus passos faziam o ch?o tremer como se um pequeno terremoto tivesse come?ado.
Akrivís me lan?ou um olhar confuso.
— Tem gente maluca por aqui também…
— Mas… me diz, Misti — come?ou a perguntar — com quantos anos você come?ou a treinar?
— Antes mesmo de nascer — respondi. — Passei minha vida toda empunhando uma espada.
— Estou ansiosa para te ver lutar!
— Vai ser minha primeira luta com tudo desde o incidente que matou todos do grupo de heróis. Tenho que admitir: o nervosismo fala mais alto.
O restante do dia passou rapidamente.
Assisti a diversas lutas ao lado de Akrivís. Vi alunos quase morrerem e outros serem venerados como lendas. Foi nesse momento que percebi algo importante: há uma grande hierarquia política dentro da academia.
Além das divis?es por uniforme e local de estudo, existem os chamados Sete Princípios — os sete estudantes mais fortes, indicados diretamente para cargos no governo, como ocorreu com o general Soáu.
Esse homem, que estudou na academia por cinco anos, tornou-se uma das figuras mais poderosas do governo justamente por ser o mais forte dos sete.
Mas foi ele quem prendeu o pai de Sonno. E também foi ele quem nos atacou na estrada.
Tenho um medo constante: o medo de que Sonno morra tentando matar Soáu e resgatar seu pai.
Esses pensamentos ainda ecoavam em minha mente durante o jantar. Estávamos sentadas em uma das dezenas de mesas do refeitório, feitas de madeira e que podiam acomodar até cinco pessoas.
Comíamos um prato fundo de sopa quente quando Sonno e o "garoto-gorila" entraram no refeitório. Muitas garotas o olhavam com desprezo — provavelmente porque ele havia derrotado o "queridinho" delas. Em contrapartida, alguns rapazes o observavam com admira??o.
O olho direito de Sonno estava coberto por faixas brancas — justamente onde se localiza sua marca de maculado.
— Parece que encontrou ele. Estranho... parece um gorila — comentou Akrivís, com a boca cheia de sopa.
— Conhecem ele? — disse Sonno, dando um tapinha nas costas do garoto. — Ele é um dos meus colegas de quarto. Seu nome é Thymós. Ele é meio irritado por natureza, mas n?o é grosseiro por maldade.
A porta do refeitório se abriu novamente.
O garoto mais forte da academia entrou.
Seus cabelos eram brancos como nuvens, e seu corpo, embora discreto, era bem definido. Seu rosto parecia esculpido em mármore — próximo da perfei??o. Dizem que sua for?a já é cobi?ada pelo próprio governo.
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Ele é o filho de Deus. O único de Monóklino.
— Sonno! Meus parabéns pela vitória contra Chyo! — disse Próta, batendo palmas enquanto caminhava em nossa dire??o. — Ele n?o era um oponente fácil… mas eu sabia que você n?o me decepcionaria.
Todo o refeitório ficou em silêncio, observando Próta.
Todos se impressionaram quando ele se apoiou nos ombros de Sonno e sussurrou algo em seu ouvido — um gesto completamente fora do esperado, vindo dele.
é provável que tenham sentido inveja. Todos aqui querem ser amigos do filho de Deus.
— Enfim… será que tenho lugar na mesa de vocês? — perguntou Próta, já se sentando ao lado de Akrivís.
— Claro! — respondeu ela, sorrindo de orelha a orelha.
Durante meia hora, comemos normalmente, discutindo os resultados e a postura de cada um na arena.
— Esses olhares n?o te incomodam? — perguntou Sonno, após tomar um gole de chá. — Parece que estamos sendo observados o tempo todo.
— Já me acostumei com isso — respondeu Próta. — Meu pai me ensinou que as pessoas só encaram as outras por admira??o… ou por instinto do cora??o.
— Ent?o creio que todas sentem algo por mim! — concluiu, rindo sozinho.
Mas eu fiquei curiosa.
— Por que escolheu morar com outros alunos? — perguntei, olhando diretamente em seus olhos. — A casa dos Sete n?o seria melhor?
Sua express?o se fechou, como se uma lembran?a desagradável tomasse sua mente.
— N?o quero morar onde o falso messias viveu — respondeu, com seriedade. Aquele que ria agora estava sombrio.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Thymós, batendo a m?o na mesa.
— Esque?am o que eu disse — murmurou Próta, tentando recuperar o tom alegre. — Estamos aqui para comemorar nossas vitórias!
Provavelmente, apenas eu, Sonno e Próta sabíamos da verdade sobre Soáu.
O general amado pela na??o havia herdado seu cargo após matar o próprio pai. Muitos o veneram por seus feitos — por curar os doentes e realizar milagres.
Hoje, aos trinta e três anos, é visto quase como um santo.
— Um brinde à vitória no coliseu! — dissemos todos ao mesmo tempo, erguendo os copos de chá.
Em um piscar de olhos, chegou o último dia da primeira fase.
O dia da minha batalha.
Era um dia chuvoso. O céu escuro e o frio intenso lembravam a noite em que fiquei presa com Sonno na caverna.
— Boa luta, Mik… — disse ele, tossindo ao me chamar pelo nome antigo. — Tenho certeza de que você vai levar essa, Misti.
Antes de eu ir para a arena, Sonno passou a m?o sobre minha cabe?a, repetindo um gesto que meu pai costumava fazer sempre que eu saía de casa.
— N?o vou ficar para trás, Sonno! — prometi.
Ent?o atravessei o port?o de ferro.
— Entrem, lutadoras! — anunciou o homem de manta preta, sua voz ressoando como um trov?o. — Nesta batalha, teremos duas alunas novas. Vamos ver o que elas têm a oferecer! Que o deus presente aben?oe a luta!
Minha oponente era Natsu. Sua aparência lembrava a de uma crian?a de nove anos, com o cabelo escuro preso em duas partes simétricas. Eu n?o fazia ideia de como ela lutava.
Empunhei minha espada e comecei a avan?ar lentamente, alternando entre dois estilos: Vento e Pedra. O estilo do Vento me permite agilidade nos movimentos e cortes rápidos, enquanto o estilo da Pedra é mais defensivo, oferecendo resistência e for?a para ataques pesados. A diferen?a está no domínio elemental e em como ele é distribuído pelo corpo durante a batalha.
— Cuidado, Misti! — gritou Sonno da arquibancada.
Uma enorme barreira de pedra desabava sobre mim, com espinhos do tamanho de pessoas projetados por toda a superfície.
Estilo Pedra: Let's... Rock!
Segurei a parede com minha m?o esquerda. Guardei a espada e a ergui, lan?ando-a contra Natsu com toda a for?a. A plateia gritou em uníssono.
— Você também domina o estilo Pedra? — Natsu perguntou, saltando por cima da barreira com agilidade surpreendente.
— A natureza é meu lar, e minha for?a é como a de uma montanha! — respondi, distraindo-a com o muro e acertando um soco em sua costela, lan?ando-a para a esquerda da arena.
— For?a bruta nem sempre é tudo — disse ela, colocando as palmas no ch?o.
Espinhos surgiram ao meu redor, perfurando minhas pernas. Em seguida, Natsu formou uma lan?a e investiu contra mim.
Meu corpo ficou paralisado — como se tivesse sido envenenado. Sua lan?a acertou meu peito, mas n?o conseguiu perfurá-lo.
— Incrível conseguir manter o enrijecimento por tanto tempo — comentou ela, recuando, exausta por sustentar o elemento por tempo demais.
Ergui minha espada novamente, agora livre da lentid?o, e cortei parte de seu ombro.
— Sabe de uma coisa? — disse, acertando um soco em seu rosto. — Eu costumo dormir enquanto uso meus poderes. Ent?o, consigo mantê-los por quanto tempo quiser!
Natsu cambaleou. Sangue escorreu de seu nariz e ela deu dois passos para trás, ofegante.
— Você é... diferente — murmurou, com o rosto franzido. — Parece que... nem está realmente aqui.
— Porque parte de mim nunca saiu dos meus sonhos — respondi, girando minha espada entre os dedos. — E, nos meus sonhos... eu sempre ven?o.
A arena tremia sob nossos pés. Natsu ergueu as m?os, invocando dezenas de raízes afiadas que avan?aram como serpentes famintas.
Estilo do Vento: Brisa da Lamina
Minha espada vibrou em um movimento fluido. Cada golpe cortava as raízes antes que me tocassem. O som lembrava folhas sendo arrancadas por uma tempestade. Corri entre os intervalos, desviando com leveza — como se dan?asse entre perigos.
Natsu recuou, tentando formar uma última barreira de espinhos à sua frente. Mas era tarde demais.
Estilo Pedra: Lamina Primitiva
Minha espada se tornou opaca como uma rocha. Ergui-a com ambas as m?os e a desci sobre a barreira, destruindo-a em mil peda?os e abrindo caminho direto até Natsu.
Ela tentou se proteger com os bra?os, mas suas for?as já haviam se esgotado.
Avancei. Num piscar de olhos, a ponta da minha espada encostou em seu pesco?o.
Silêncio total.
— Acabou — declarei, com voz firme.
Natsu caiu de joelhos.
— Você me venceu... mas... quem é você de verdade?
Guardei minha espada nas costas e estendi a m?o para ajudá-la a se levantar.
— Alguém que ainda está descobrindo isso. Mas, hoje... me chame de Misti.
Ela segurou minha m?o, relutante, e se p?s de pé com dificuldade. O árbitro surgiu das sombras da arena, com a voz firme:
— Vencedora: Misti!
A plateia explodiu em gritos e aplausos. Mas o som que mais se destacou foi o de Sonno, lá do alto:
— Isso, Misti!
Olhei para ele, e seu sorriso genuíno me fez sorrir também.
Por dentro, eu sentia algo novo... n?o era apenas a vitória. Era a certeza de que, passo a passo, eu estava mais perto de entender quem eu era — e por que fui trazida de volta.
Mas uma dor explodiu em meu peito, a mesma sensa??o que tive ainda crian?a.
Ent?o caí desmaiada ao ch?o…

