Quando abri os olhos, vi uma sala com paredes de pedra e ch?o de madeira. Eu estava deitado em uma cama, com todo o corpo enfaixado. Ao lado, havia outra cama igual, separada por uma pequena mesa.
Tentei me levantar, mas as dores n?o permitiram.
— N?o se esforce muito, garoto — disse um senhor de idade avan?ada, carregando algumas po??es em minha dire??o. Seu cabelo e barba eram totalmente brancos.
— Q-que lugar é esse? — perguntei, com a voz rouca.
— Os fundos da igreja Tírisi. Estamos na cidade de Anáktisi — respondeu ele. — é uma cidade relativamente grande, bem próxima à academia. Eu estava voltando para a cidade quando vi você e uma jovem caídos no ch?o. Coloquei vocês na carro?a e os trouxe até a igreja, o único lugar capaz de curar feridas t?o grandes quanto essas.
— E a Misti? Ela está bem?
Nesse momento, consegui for?a para me sentar na cama.
— Está sim, jovem. Ela saiu para comprar algumas coisas. Você ficou em coma por quatro dias.
Fiquei realmente surpreso.
— Mas me diga... você é um maculado?
— Sim. Como o senhor descobriu?
— Meu av? também era. Vivi toda a minha infancia com ele. Antes de morrer, me disse que os maculados emanam vozes em sua aura. E, quando estava te colocando na carro?a, ouvi uma voz agradecendo.
Provavelmente foi Vlémma que disse isso. Seria ruim para ela perder um corpo que conquistou recentemente.
— Beba isso — o senhor me entregou um copo com uma po??o de cicatriza??o, um líquido azulado que precisava ser tomado.
O gosto era surpreendentemente bom, lembrava um pouco suco de abacaxi.
— Também é preciso passar isso aqui na sua ferida — ele mostrou uma pomada, conhecida por sua ardência extrema.
— Acho que vou esperar para tirar as ataduras, aí depois passo a pomada.
— é uma pena, garoto. Terá que conviver com uma cicatriz gigante no corpo.
— Acho que esse é o menor dos problemas, senhor. Tenho um objetivo na academia que vai me fazer esquecer dessa marca.
— Boa sorte, Sonno.
Misti deve ter dito meu nome a ele.
— Sua amiga está te esperando.
— E onde ela está?
— Eu n?o fa?o a mínima ideia, jovem.
Ent?o me levantei e saí pela porta principal.
— Valeu, velhote. Vou me lembrar de te agradecer no futuro.
Subi algumas escadas até chegar ao terreno da igreja, onde havia uma saída para a rua. Aparentemente, aquele era o centro da cidade.
Havia comércios por todos os lados, muitas pessoas passando pelas lojas e diversos guerreiros com armaduras caras. A rua era feita de paralelepípedos, diversos postes com luminárias iluminavam o caminho, e altos estabelecimentos geravam sombras. Encontrar Misti seria um desafio.
Andei durante horas, conheci algumas lojas de armas realmente interessantes e cheguei a uma feira. A maior parte vendia alimentos, principalmente peixes. Porém, uma barraca vendia anéis e colares de pedras preciosas.
Observei algumas pe?as de perto, enquanto o vendedor me olhava. Era uma senhora de longos cabelos que chegavam às coxas. Um dos adere?os me chamou a aten??o: um colar com uma pedra roxa, chamativa e radiante como uma borboleta.
— Para sua noiva, jovem? — a senhora se levantou e se aproximou de mim, pegando o colar que estava em minha m?o.
— Estava pensando em minha amiga, mas n?o tenho dinheiro suficiente... Acho que vou deixar para a pro—
Ela cortou minha fala.
— N?o ligue para isso. Vocês precisam viver a vida. Leve este com você. Tenho certeza de que ela vai gostar.
Era quase um milagre.
— Tem certeza, senhora?
— é só um gesto de gentileza. Meu marido falou bastante de você.
— Por acaso... seu marido é o senhor da igreja?
— Sim. Ele trouxe essa joia em sua última viagem, quando encontrou vocês.
— Agrade?o com todo o meu cora??o!
Acenei para ela e coloquei o colar no bolso.
As pessoas desse mundo s?o mais gentis. Estava acostumado a ser tratado mal até pelos vilarejos que salvamos no outro mundo. A gratid?o era praticamente inexistente.
Meu grupo de heróis era formado por onze pessoas. Nosso objetivo sempre foi exterminar os monstros que atacavam as cidades.
Sinto que esque?o de alguém...
Enquanto andava pelas ruas, lembrava das conversas do antigo grupo reunido em uma taverna.
— Passa mais uma cerveja pra cá! — dizia Zuk, um homem robusto de cabelos ruivos e curtos, que bebia até n?o conseguir mais andar.
— Chega disso, Zuk. Vamos partir amanh? cedo — advertia Espa, o líder do grupo e espadachim, de cabelos negros como o espa?o e olhos resplandecentes como a lua.
— Caramba, vocês só d?o trabalho — reclamava Mika, a pessoa que eu amava e que tenho a sensa??o de ainda estar viva. Ela era linda como a neve.
Enquanto lembrava da cena de todos reunidos, vi a silhueta de uma pessoa ao fundo. Mas n?o consegui identificar quem era.
Espero que Mika esteja bem.
— Vamos pra casa, Mika — dizia Kasta, a mulher mais velha do grupo, com seus trinta e sete anos. Seu corpo era o mais bonito de todo o mundo, mas, como freira, n?o se relacionava com ninguém. Ela me ajudava a curar os feridos em batalha.
— Fica mais um pouco, minha linda... sem você aqui, nós n?o somos nada! — exclamava Ruvy, um garoto de vinte anos que lutava apenas com os punhos. Era o mais forte entre nós e, possivelmente, um dos mais fortes do continente. Também era romantico... até demais.
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— Para de olhar assim pra ela, Ruvy. é melhor gastarmos nosso tempo descansando do que amando — dizia Ento, o único elfo do grupo, com cabelos azulados como o céu.
— Você só fala isso porque vai viver tempo pra cacete, Ento — resmungava Fer, o irritado, mas amado por todos.
— Pelo menos alguém vai contar nossas histórias daqui a uns cem anos — dizia o otimista Yuika, habilidoso com armas de longa distancia.
— Espero que deus ou?a seu pedido — respondia Gatus, o padre e mestre em magia do grupo.
— Fica frio aí, gente. Vamos nos preparar pra sair amanh?. N?o é, Yaso? — dizia meu melhor amigo, Kryo, um mago de eletricidade de cabelos loiros e olhos verdes como esmeraldas.
Naquele mundo, os poderes eram outros. Os momentos também. Mas sempre há algo ou alguém para atrapalhar tudo.
Tenho quase certeza de que estou esquecendo de alguém... Tanto faz.
Andei até sentir uma forte dor no peito, rasgado pelas espadas de Soáu. Parei em um banco de um mirante. Ninguém passava por ali naquele momento.
O mirante dava vista para toda a cidade de Anáktisi, bem como para os vales atrás dela. O brilho das casas se destacava em meio ao p?r do sol que estava para come?ar.
— Sonno?
A voz de Misti soou atrás de mim.
— Você acordou!
Ela correu e me abra?ou. Todo o seu corpo encostava em minhas costas; sua cabe?a estava ao lado da minha e seus bra?os apertavam meu peito.
— Desculpa por te preocupar.
— N?o fiquei preocupada, só precisava de você pra carregar a bolsa durante o resto da viagem.
— Parece até que fiz algo de errado...
Ela se sentou ao meu lado, apreciando a vista à nossa frente. Estava usando um chapéu esverdeado.
— E suas feridas, Misti? Já melhoraram?
— Boa parte sim, mas essa cicatriz vai ficar assim pra sempre...
Misti levantou um pouco a camisa e mostrou a grande cicatriz em forma de X em sua barriga.
— Também tenho uma dessas. é pra indicar nossa amizade...
— é, posso até ver por esse lado.
O sol se punha no horizonte. Ent?o pensei que aquele era o momento perfeito.
— Tenho um presente pra você, Misti. Abra suas m?os e feche os olhos, por favor.
— N?o vai fazer nada de estranho comigo, né?
— Nem que me pagassem.
Calmamente, tirei o colar do bolso e o coloquei em sua m?o.
— Pode olhar...
Seus olhos brilharam, refletindo a luz da pedra roxa.
— Que... lindo!
Fiquei feliz que ela tivesse gostado.
Ela tirou o chapéu, colocando-o no outro lado do banco, e come?ou a vestir o colar. Ficou perfeito em seu pesco?o. Porém, uma forte ventania come?ou. O chapéu de Misti voou com o vento, mais rápido do que eu conseguia acompanhar.
— Ah, n?o!
Até que uma flecha atingiu o chapéu e o prendeu contra a parede de uma torre de vigia, que ficava à direita do banco.
— Me desculpem!
Uma garota baixa de cabelo rosa correu até nós e se ajoelhou, pedindo desculpas.
— Achei que era uma boa oportunidade para atirar, mas acabei perfurando seu chapéu! Eu posso pagar outro!
— Se acalma, garota. Pelo menos você impediu que ele voasse para longe. Qual o seu nome?
A garota se levantou.
— Akrivís, uma arqueira que está indo estudar na academia.
Misti pegou a m?o de Akrivís.
— Sério?! Nós também estamos indo! Meu nome é Misti, muito prazer! E o nome desse estranho aqui, que parece uma múmia, é Sonno.
— Pirralha...
— Vamos partir para a academia amanh?. Consegui uma carona com alguns mercadores daqui. Quer vir com a gente?
Perguntei meio desconfiado, mas achei que seria bom ter uma arqueira como amiga. Seria útil em algum momento. Além disso, ela me lembrava alguém.
— Claro!
E assim come?ou nossa jornada rumo à academia.
Assim fomos para a academia, passando por diversos locais diferentes e enfrentando pequenos monstros no caminho.
Partimos de Anáktisi logo ao amanhecer, junto com a caravana de mercadores que nos ofereceu carona. O caminho era longo e variado — atravessávamos florestas densas, colinas esverdeadas e pequenas aldeias. O céu, ora limpo e azul, ora coberto por nuvens pesadas, era o único constante. Eu, Misti e Akrivís caminhávamos lado a lado, conversando sobre o que esperar da academia e relembrando os dias em que ainda estávamos nos recuperando na igreja.
Akrivís, apesar de ter se juntado a nós há pouco tempo, já falava como se fosse amiga de infancia de Misti. Era animada e n?o parava de contar histórias sobre sua vila natal, onde aprendera a usar o arco desde os cinco anos.
— Meu pai dizia que quem sabe acertar um esquilo a cem metros nunca passa fome — contava ela, sorrindo e ajeitando o cabelo rosa atrás da orelha.
— Espero que n?o tenha usado isso contra os colegas — brinquei.
— Só contra quem merecia — respondeu, piscando o olho.
Ent?o chegamos na academia, cerca de dois dias depois.
Um pequeno coliseu, cercado por colunas de pedra, reunia pouco mais de trezentas pessoas. Era ali que aconteciam as batalhas capazes de mudar o destino de muitos.
Essas academias foram criadas por um homem muito poderoso chamado Monóklino. Esse era o nome que ele usava em sua encarna??o, já que ninguém podia pronunciar o nome de um deus.
Monóklino foi o primeiro deus. Ele dividiu sua alma e, com isso, surgiram o bem absoluto e os governantes. Mas sempre fora pacifista. N?o aceitava a ideia de ter que lutar contra seus próprios filhos, ent?o criou a academia para que os humanos pudessem contê-los.
Os maculados — como eu — recebiam um tipo de tratamento especial. Tínhamos professores designados para nos ensinar, já que éramos receptores do poder dos deuses. Ainda assim, precisávamos passar pelos mesmos testes que os outros alunos.
A multid?o no coliseu estava reunida por dois motivos: escolher o uniforme e descobrir onde iríamos estudar.
O uniforme azul era dos mais fracos — aqueles que perdiam nas primeiras rodadas. O laranja representava os medianos — nem fortes, nem fracos. E o branco era dos melhores — os que chegavam até as finais ou venciam as batalhas. Além disso, os maculados ganhavam acessórios especiais: colares ou enfeites de cabelo.
Para alcan?ar meu objetivo, eu precisava chamar aten??o. Mas isso n?o era t?o difícil, considerando que todos ali tinham entre treze e dezoito anos.
Eu e Misti tínhamos quatorze, Akrivís estava com quinze anos.
A fachada da academia era impressionante. Dois castelos distantes ao fundo do campus traziam uma sensa??o de imponência. O coliseu ficava no canto direito, e havia várias outras constru??es espalhadas pelo terreno. No centro, um caminho de pedra levava até os castelos: o primário, para os mais fracos, e o secundário, para os mais fortes.
Mas n?o era só um lugar de batalha — a academia também tinha planta??es e aulas de po??es.
O sol já estava se pondo quando um homem gigante — devia ter mais de dois metros — usou magia para amplificar sua voz e come?ou a falar:
— Vou explicar como funcionam as batalhas. Prestem aten??o!
A multid?o, antes barulhenta, ficou em silêncio.
— O torneio vai durar oito dias. Nos seis primeiros, vamos descobrir quem s?o os mais fracos... que receber?o o lindo uniforme azul!
As vaias foram instantaneas. Ninguém queria aquela roupa feia.
— No sétimo dia, entregaremos os uniformes laranjas. E, por fim... no oitavo dia, os brancos! Os mais fortes! E um deles vai receber o título de mais poderoso.
Misti me encarou; Akrivís estava ao seu lado.
— Sonno, o que vai fazer se ganhar? — perguntou Misti.
— Acho que nem vou conseguir vencer todas... — respondi.
— Que autoestima baixa...
Com certeza, meu “eu” do outro mundo nunca teria dito isso. Ent?o, o homem gritou novamente:
— é expressamente proibido o uso de necromancia ou manipula??o mental por magia! Quem fizer isso será expulso da academia!
Eu t? ferrado...
— Por hoje é isso. V?o para seus dormitórios e descansem. Amanh? come?amos de verdade!
Fui até meu novo quarto, perto do castelo secundário. Ia dividir o espa?o com dois garotos que eu ainda n?o conhecia. A porta de número duzentos e trinta e sete estava no fim de um longo corredor de madeira.
Ao abrir, vi um quarto rústico e espa?oso, com três camas encostadas na parede da esquerda. Do outro lado, havia armários e escrivaninhas. à minha frente, uma janela grande. O banheiro, ao lado esquerdo da porta, era pequeno, mas tinha uma banheira, pia e vaso sanitário. Bem melhor do que onde eu morava antes.
Come?ei a refletir sobre meu passado.
Meus pensamentos foram interrompidos quando a porta se abriu. Entrou um garoto de cabelos brancos e olhos cinza. Era absurdamente bonito — quase de outro mundo.
— Boa noite...
— Oi... — respondi, ainda sentado na cama perto da janela.
— Você é o Sonno, né?
Como ele sabia meu nome? Nunca nos vimos.
— Pode me chamar de Protá. Ou, se preferir, de santo filho.
— Protá tá bom...
— Sou filho de Monóklino. Espero que sejamos bons amigos.
ótimo... Dividir quarto com outro maculado...
— Como você sabe que eu sou um?
— Tava rolando um boato. Chutei que era você.
A porta se abriu de novo, com um chute dessa vez. Um garoto de cabelo vermelho entrou. Tinha olhos de cores diferentes — um vermelho e outro azul.
— Foi mal a demora, Protá.
— Só tenta abrir com menos for?a, Thymós.
— E esse aí?
Ele me olhou com raiva.
— Sonno Bj?rny, da cidade de Tarachi.
— N?o me interessa... SAI DA CAMA DA JANELA!
Pulou em cima de mim, envolto em uma aura laranja, pronto para me socar. Mas Protá o segurou com uma só m?o. O impacto criou um vento forte que derrubou um vaso de plantas em cima do armário.
— Por acaso o Sr. Irritadinho n?o entendeu que ele chegou primeiro?
Thymós resmungou, deitou na cama do meio e dormiu em poucos minutos.
Esse foi o meu primeiro dia na academia.
Algumas horas depois, acordei com o canto dos pássaros. Todos os alunos foram chamados de volta ao coliseu. E lá estava o mesmo homem de antes, com sua voz imponente.
— Espero que tenham dormido bem...
Ele fez uma pausa e olhou ao redor.
— Porque agora come?a a batalha do coliseu!

