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Capítulo 3 - Nostalgia

  Mais alguns anos se passaram.

  Minha vida como Sonno se tornou mais difícil após a pris?o de meu pai. Nossa condi??o financeira piorou, e minha m?e precisou fazer diversos trabalhos para me sustentar. Como ela sabia apenas magias de cura, passei a maior parte do tempo com o pai de Misti, Iguetis, o comandante do quinto maior exército da por??o.

  Estávamos com quatorze anos.

  Treinávamos todos os dias desde ent?o. Iguetis precisava ficar na capital por seis meses a cada ano para comandar seu exército; nesse tempo, praticávamos sozinhos. E, em uma semana, ele logo partiria para a capital novamente.

  — Mais rápido, Sonno!

  — Se continuar nesse ritmo, vai ficar difícil de me acertar.

  O fato de terem descoberto que eu era um maculado trouxe grandes cobran?as — um peso sobre minhas costas. A expectativa de que eu me tornasse muito forte era imensa. Porém, lembrar daquele dia me fazia querer ser poderoso o suficiente para matar todos aqueles merdas da política.

  Soáu. Esse é o nome do homem que eu vou enterrar a sete palmos do ch?o.

  Logo acertei um soco na barriga de Iguetis.

  — Muito bom...

  Naquele momento, ele percebeu o qu?o rápido meu estilo de luta evoluía durante uma batalha.

  — Na próxima vai ser no rosto. Melhor ficar esperto!

  — N?o vai se gabando tanto, Sonno — disse a "forte" Misti.

  Mas ela realmente estava com um físico surpreendente.

  — Acho que é isso por hoje, pessoal.

  — Pai, lute mais um pouco!

  Iguetis sentou-se em um banco próximo à parede, ajeitou o cabelo com as m?os e suspirou fundo.

  — Sentem-se. Preciso falar algo para vocês.

  Assim fizemos.

  — Tem sido um pouco difícil para mim e para Emma continuarmos os treinamentos… Vocês sabem os motivos.

  O rosto de Iguetis estava emotivo; ele ficou triste assim que lembrou de sua antiga esposa.

  — Mas esque?am isso… porque agora vocês v?o treinar na maior academia de magia e estilos da por??o!

  Isso era mais do que eu precisava para subir na política. N?o posso negar que fiquei feliz.

  — Sério?!

  Misti gritou, abrindo um grande sorriso no rosto. Ali estavam visíveis duas realidades: uma filha feliz com seu futuro; do outro lado, um pai desesperado com o fato de ficar longe da única coisa que lhe restou.

  — Sim, filha. Vocês v?o precisar partir amanh?. Eu demorei para contar isso, me desculpe.

  Sua filha ent?o foi até ele e beijou sua cabe?a. Iguetis n?o conseguiu conter as lágrimas.

  Mas, em um piscar de olhos, o som dos sapos ecoava pelo vilarejo, e um novo dia, juntamente com uma nova jornada, surgiu. Arrumamos todas as coisas antes de partir.

  — Mas é ótimo ser homem… vou precisar carregar uma bolsa gigante e pesada durante toda a viagem.

  O sol ainda estava nascendo.

  — M?e, estou saindo!

  Vi ao longe minha m?e correndo em minha dire??o após ouvir meu grito. Ela me abra?ou com muita for?a.

  — Que a lua ilumine seu caminho, filho. Eu te amo.

  — Eu prometo que vou voltar, n?o se preocupe.

  Minha m?e chorou profundamente — algo como alegria e tristeza misturados. Assim, iniciamos uma jornada de dois meses. Ao fundo, vi Iguetis ajoelhado, abra?ando Misti. Na verdade, ele n?o nos levaria nessa viagem, pois partiria em alguns dias para seu posto.

  — Vamos, Misti.

  Ela estava parcialmente arrumada, carregando uma mala preta e, em seu lado esquerdo, uma espada na bainha.

  — Vai ser horrível viajar sozinha com você… vê se n?o me enche o saco.

  Sua voz estava com um tom de raiva, como se eu tivesse feito algo ruim para ela.

  — Muito obrigado pelo elogio — respondi com um tom sarcástico.

  Passamos por muitos locais: estradas de pedra e barro, muitos animais e insetos. Parece que demorou muito, mas só havia passado o primeiro dia. Já havíamos saído da área do vilarejo, entrando no meio de uma floresta densa. Ainda estávamos na parte mais fácil da jornada.

  No outro dia, uma chuva intensa come?ou desde a manh?. N?o podíamos simplesmente molhar toda a roupa e o material da mochila pesada, ent?o paramos em uma caverna que encontramos no caminho. N?o era uma caverna grande — mais um buraco em um morro alto. Porém, Misti odeia uma coisa mais do que eu: insetos.

  — Mata logo esse bicho!

  Misti gritava enquanto se agarrava no meu bra?o direito, apontando para uma espécie de formiga voadora. Era um inseto chato de lidar.

  — Primeiro me solta, maluca!

  Nesses últimos anos desenvolvi novas habilidades; uma delas é a manipula??o de corpos. N?o está totalmente completa, mas consigo usar parcialmente. Estiquei a palma da minha m?o em dire??o ao inseto, controlando seu corpo de longe. Esse é um poder que consigo usar apenas em seres muito mais fracos que eu. Funciona como uma carro?a: o ser influenciado obedece a simples comandos que dou.

  — Voe sem parar até a pedra espinhosa na parede.

  E assim o fez. Voou até ser perfurado pela ponta de uma pedra, que partiu o inseto ao meio.

  — Por que demorou tanto, idiota...

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  O rosto de Misti estava fofo, como uma vergonha por eu ter que fazer algo t?o simples.

  — Pode pelo menos me agradecer por ter feito isso.

  — Que seja… apenas fa?a isso mais rápido da próxima vez.

  Estava ficando frio. Muito frio. Estávamos encostados na parede, um longe do outro. Levantei-me e abri a mochila, mas n?o havia muitas roupas pesadas além das que já usávamos. Porém, havia um cobertor de pele e couro. Mesmo envergonhado, peguei-o.

  — Posso sentar junto com você?

  Ela suspirou fundo.

  — N-n?o tem problema.

  — Aqui...

  Joguei o cobertor por cima de nossas pernas. Ficamos encostados um no outro.

  — Sabe, Sonno, sempre tive curiosidade sobre seu deus. Você já viu ele alguma vez?

  — Já… mas n?o me lembro de nada do que aconteceu. Mas seu rosto era como o de uma mulher, e seu nome é Vlémma.

  Quando disse o nome da deusa, o nariz de Misti come?ou a sangrar.

  — Caramba, você tá bem?

  — Só… um pouco tonta. N?o precisa se preocupar comigo.

  — Você lembra da história sobre o nome dos deuses, Sonno?

  No momento em que ela citou, lembrei que n?o podia ter dito seu nome. Um humano n?o consegue dizer o nome de um deus. E fen?menos acontecem quando um mito é quebrado.

  Meus olhos arregalaram-se. Abaixe a cabe?a sob o cobertor.

  — Me desculpe, Misti.

  Minha voz quase n?o saía. Tive vontade de chorar.

  E choveu o dia todo.

  Andamos por muitos e muitos dias, enfrentando mais dificuldades do que imaginávamos. Ainda assim, admirar a paisagem ao lado de Misti me trazia uma estranha nostalgia. Seguíamos pela mesma estrada de barro por horas, cruzando algumas pontes de madeira pelo caminho.

  — A academia precisa ser muito boa… n?o aguento mais andar tudo isso.

  — Acho que vai valer a pena, Misti. Seu pai n?o faria isso à toa.

  — Como será que s?o as pessoas nas cidades grandes? Nunca vivi em uma metrópole ou algo do tipo.

  — A gente mora no mesmo vilarejo desde que nasceu, você tá sonhando demais.

  — é que esse mundo é meio estranho…

  — Esquisita.

  — Você que é, idiota!

  Ela com certeza me odeia.

  Conversamos tanto que quase n?o percebemos uma linda cachoeira à direita da ponte que cruzávamos, a qual passava sobre um rio. Paramos para admirar aquela cena. O som da água ecoava pelo ambiente; pássaros bebiam da água transparente e uma brisa suave nos envolvia. As árvores ao redor protegiam os animais que ali viviam, já que muitos dependiam daquela fonte de água.

  — Uau, olha que vista!

  Dava até para sentir os respingos em nossos pés; a ponte ficava bem próxima da cachoeira.

  — Primeira recompensa que temos nesse caminho… e provavelmente a última até a academia.

  — Deixa de ser otimista…

  Antes que ela terminasse de falar, Misti apontou para o topo da cachoeira. Lá, um homem estava sentado na beirada, com a perna direita dobrada e a outra esticada.

  — Por que tem uma pes—

  Um estrondo fez todos os pássaros voarem. As águas se agitaram, as folhas balan?aram e uma névoa surgiu onde o homem estava. Quando a névoa se dissipou, ele havia desaparecido. Logo após, ouvimos uma risada.

  — Hahaha… faz muito tempo, meu querido Sonno. Você também, garota. é bem familiar para mim…

  Enfim, vejo que cresceram bastante.

  Diante de nós, apareceu um homem de aproximadamente trinta anos, com cabelo liso e loiro que caía até os ombros. Vestia roupas casuais e carregava duas espadas nas costas. Seus olhos, parecidos com os de uma cabra, tinham um ar estranho, mas sua aparência era surpreendentemente impecável — até demais.

  — Quem é você?

  Ele se aproximou com passos lentos, apoiou-se no corrim?o da ponte e esbo?ou um pequeno sorriso.

  — Fico triste por n?o se lembrar de mim. Tenho certeza de que sabem quem sou, talvez só n?o saibam meu nome.

  Mas você é um garoto inteligente, parece até um adulto.

  Misti, assustada, segurava minha camisa por trás.

  — Diga de uma vez, n?o sei de nada do que está falando.

  Ele se aproximou com seus passos dramáticos, pousou a m?o no meu ombro e, com a outra, afastou o cabelo que cobria parcialmente meu olho.

  — Soáu. O maculado que vai dominar o mundo e se tornar um deus. O deus que Monóklino espera…

  Minha mente ficou em branco. O momento pelo qual eu treinei durante anos havia chegado. Meu corpo tremeu dos pés à cabe?a; eu n?o conseguia mexer as m?os, mesmo querendo matá-lo instantaneamente. A lembran?a do dia em que meu pai foi preso invadiu meus pensamentos. Cada segundo daquela tragédia retornava com nitidez. Pela tens?o, caí de joelhos e vomitei no ch?o. Vozes ecoavam em minha cabe?a, me assombrando: O homem que você quer matar está na sua frente.

  Uma press?o absurda — como a que senti quando descobriram que eu era um maculado — pesava sobre mim.

  — Maldito!

  Quando olhei para cima, Misti corria na dire??o de Soáu. Ele desviou facilmente de seu soco e lhe deu um tapa no rosto, jogando-a contra o corrim?o.

  — Opa, opa. Ainda n?o. Meu assunto é com o Sonno. Você ainda tem esse hábito de protegê-lo, n?o é?

  Por algum motivo, tudo que ele dizia me trazia ecos de memórias de uma vida passada. Respirei fundo e consegui me levantar.

  — Eu juro… vou te matar!

  Minha maior especialidade atual, além da manipula??o, era a agilidade. Larguei a mochila e corri para o lado de Soáu, tentando socar seu rosto — ou ao menos era o que eu pensava. Ele bloqueou meu golpe com um único dedo e riu, debochado.

  — Sabe, é hilário pensar que você seria t?o forte. Mas eu esperava mais de você. Nem parte da sua alma você entregou ainda, certo?

  Ignorei suas palavras e continuei atacando, com socos e chutes, mas nenhum surtiu efeito. Restava-me uma única alternativa: manipula??o. Estendi a palma da m?o em sua dire??o e tentei usar meu poder. No entanto, minha mente foi bloqueada. Tudo escureceu.

  Uma mulher de longos cabelos pretos, que cobriam seu rosto e desciam até a cintura, apareceu. Seu corpo era curvilíneo; seus olhos sangravam enquanto ela empunhava uma enorme espada. Ela me empurrou para o ch?o, levantou meu queixo com a m?o e beijou minha testa — para, em seguida, apunhalar meu cora??o com a lamina. A dor foi real.

  Quando voltei à realidade, estava gritando alto, segurando o peito em panico.

  — Oh, n?o… Que peninha do garotinho.

  Misti, mais uma vez, tentava atacar Soáu. Desta vez, surgia atrás dele, prestes a decapitá-lo. Ele apenas se virou, empunhou suas duas espadas e cortou a barriga e o peito dela em um X. Muito sangue escorreu por suas roupas rasgadas.

  Depois de anos, a marca da deusa apareceu em meu olho. Levantei rapidamente e acertei um forte chute nas costelas de Soáu. Ele revidou, cravando a lamina no meu ombro esquerdo, cortando-o profundamente.

  — Fica tranquilo, n?o vou te matar aqui. Quero que você fique mais forte para que eu possa te humilhar no futuro.

  Ele ergueu as espadas para guardá-las nas costas. Usei o resto de for?a que tinha para tentar manipulá-las. Consegui controlar parcialmente uma delas e fiz um corte no lado de seu rosto, perto do olho direito.

  — Espero que goste da cicatriz, desgra?ado…

  Ele cerrou o punho e me deu um soco no meio do rosto.

  — Esse seu olho ainda vai te levar à ruína, Sonno!

  O ch?o da ponte se quebrou. Caí na água gelada do rio, olhando para o azul do céu. A liberdade dos pássaros me causava inveja. Eu n?o tinha mais for?as para levantar. Soáu pegou Misti pelo pesco?o e a jogou ao meu lado. Ela estava desmaiada… ou talvez morta. A água já n?o era mais transparente, mas avermelhada como rubi. Segurei a m?o de Misti e permaneci imóvel.

  O som dos passos de Soáu na água parecia maior que o da cachoeira.

  — Até nosso próximo encontro. Esteja mais forte até lá. Só para te lembrar: n?o é só você que vai morrer.

  A aura de Soáu come?ou a brilhar e se transformou em uma lan?a. Ele a empunhou e cortou meu corpo na diagonal.

  — Argh…

  Meus gemidos de dor aumentavam.

  — Adeus, meu herói.

  De repente, estava novamente em uma sala branca. Tive a estranha sensa??o de já ter estado ali antes. Sentei-me na ponta de uma longa mesa de jantar. Do outro lado, uma mulher com a marca no olho. Sem dúvida, era Vlémma.

  Uma sombra surgiu e serviu os pratos: um bife com acompanhamentos que eu n?o reconhecia.

  — Sinta-se à vontade, Sonno.

  Vlémma pegou os talheres e come?ou a cortar a carne.

  — Ent?o… eu morri?

  — Te prometi que n?o ia deixar você morrer.

  — Ent?o por que estamos aqui?

  — Precisamos negociar.

  Ela continuava a comer rapidamente, já havia devorado dois bifes.

  — Me dê cinco por cento da sua alma que eu te darei dois por cento do meu poder.

  — Tá de sacanagem, né?

  — Dois por cento do poder de uma deusa n?o te interessa? Garoto, os outros deuses n?o negociam com seus maculados, apenas esperam que entreguem suas almas. Ou será que está interessado no meu corpo?

  De longe, Vlémma exibiu ainda mais seu decote nos seios.

  — Vai sonhando, velhote.

  — Sabe que, se n?o fechar o contrato, vai perder mais batalhas, né?

  — Faz sentido.

  — Engra?ado… n?o me parece confiável negociar com a maior manipuladora que existe.

  — Como sempre, esperto. Te darei três por cento do meu poder e mais dois da minha for?a física. Nada além disso.

  — Acho que temos um acordo, dama Vlémma.

  Após o trato, comecei a comer. Era a coisa mais gostosa que já provei em todo o universo.

  — De onde é essa carne?

  — Prefiro que n?o saiba a procedência.

  Desconfiei um pouco, mas continuei comendo. Mas a alegria de pobre dura pouco.

  Eu acordei novamente...

  (Por favor, deixem seus feedbacks nos comentários)

  ~Anjos.

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