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Capítulo 5 - Chamas

  De repente, uma espécie de pergaminho surgiu flutuando na m?o de cada lutador no coliseu. Nele, estavam escritas as regras do torneio e a ordem das batalhas:

  Sonno Bj?rny — Arena 1 — Segundo Lutador — Oponente: Chyo

  Nunca nem ouvi falar...

  — Vou ser o segundo a lutar na principal. E vocês? — perguntei.

  Misti estava feliz e sorridente.

  — Serei a penúltima, e ainda vai ser daqui a dois dias!

  Já Akrivís estava desesperada.

  — Eu... vou... ser a primeira na segunda arena...

  Misti come?ou a gargalhar da situa??o, rindo enquanto se apoiava no ombro de Akrivís, que estava ajoelhada.

  Foi nesse momento que Protá chegou ao meu lado, vestido com roupas simples e portando apenas uma espada presa à cintura.

  — N?o vai usar alguma arma, Sonno?

  — Fui treinado para usar meus punhos e minha mente, mas de vez em quando uso uma espada de madeira.

  — Ah... entendo. Conto com você na final.

  — Digo o mesmo. Boa sorte.

  Enquanto isso, Thymós já estava brigando com um dos participantes que havia esbarrado nele.

  Porém, o port?o do coliseu se abriu.

  A primeira arena tinha formato circular, cercada por colunas de pedra, com tamanho comparável ao de uma catedral inteira — e isso sem contar o espa?o da plateia.

  Protá e Akrivís seguiram para o segundo port?o, à direita do principal.

  — Vamos escolher um lugar para sentar, Misti.

  — Quero assistir do melhor lugar possível!

  Nos sentamos na primeira fileira, onde muitos disputavam território.

  Alguns minutos depois, um homem coberto por mantos pretos entrou carregando um grande manuscrito.

  — Entrem!

  Os port?es interiores se abriram, e o som das correntes rangendo silenciou a multid?o agitada.

  — à minha esquerda, temos "O Indomável"! Conhecido por seu instinto devastador e selvagem!

  — Do outro lado, o Espadachim Carmesim! Vyssin, vencedor do torneio de dois anos atrás!

  A multid?o gritava o nome de Vyssin.

  O Indomável possuía cabelo castanho espetado, usava a?o nos punhos e era o mais alto entre todos. Sua express?o lembrava a de um urso encarando um peixe prestes a devorar.

  Seu oponente usava um chapéu vermelho com duas pontas curvadas como chifres invertidos. Sua roupa lembrava a de um monge, e seus olhos estavam cobertos pelo próprio chapéu.

  — Que o deus presente aben?oe esta batalha... Lutem!

  A luta come?ou rapidamente. O Indomável correu em dire??o ao espadachim, e o árbitro desapareceu em meio a uma névoa escura.

  Vyssin esquivava de todos os golpes da fera sem tirar as m?os do bolso. Também defendia os chutes e revidava com os próprios pés, demonstrando uma diferen?a gritante de habilidade.

  — N?o sente vergonha de ser t?o selvagem? — discursava o espadachim. — Você devia me proporcionar uma luta emocionante, n?o ser humilhado t?o facilmente.

  As palavras fizeram o rosto do Indomável ficar vermelho de raiva. Seus dentes rangiam, e seus movimentos ficaram mais rápidos. Conseguiu agarrar a gola do espadachim.

  — Desgra?ado!

  O lan?ou para o outro lado do coliseu, criando uma nuvem de poeira que cobriu nossa vis?o.

  — Será que ele está bem? — Misti perguntou, torcendo por Vyssin. Ela me lembrava de Mika, que sempre gostava de ver lutas entre espadachins.

  — Ele é forte. N?o teria sido pego sem um motivo.

  Do meio da poeira, Vyssin surgiu de pé, completamente ileso. Tirou as m?os dos bolsos e arrumou a camisa rasgada na gola. A plateia foi à loucura com seu retorno fenomenal.

  Misti, ao ver aquilo, lembrou-se de sua vida passada — dos momentos em que treinava com Yaso com espadas de madeira, e o quanto se sentia realizada ao acertar seus golpes.

  — Viu, Misti? Falei que era planejado — comentei.

  Apesar das lembran?as, eu me mantinha focado na luta.

  Mais uma vez, o Indomável correu em sua dire??o, agora com o dobro da velocidade e olhos assassinos.

  — é uma pena, Indomável. Esperava mais de você... Mas sabe de uma coisa?

  Pela primeira vez, o Espadachim Carmesim tirou sua espada da bainha e a levantou acima da cabe?a. Sua aura ficou vermelha, e a poeira se dissipou.

  — This blood on my sword… came from you! — Sua espada come?ou a pingar sangue, mesmo sem ter golpeado ninguém.

  No instante em que terminou de falar, um chiado ensurdecedor atingiu até a plateia.

  O Indomável, que estava prestes a atacá-lo, ficou completamente paralisado e caiu ao ch?o — sem ferida alguma visível.

  Todos gritaram o nome de Vyssin. A cena foi impressionante, ainda mais com a press?o atmosférica dentro do coliseu.

  Mas tive de sair rapidamente — minha luta era a próxima.

  — Tor?a por mim. N?o vou demorar muito.

  — Pode deixar!

  O espadachim convocou os curandeiros:

  — Curem-no imediatamente. Seus órg?os internos foram afetados, mas ele n?o morrerá.

  E saiu sem sequer olhar para a plateia.

  Na verdade, o port?o n?o era longe. Desci algumas escadas e entrei em um corredor. Foi lá que Vyssin passou por mim.

  — Eu sei que você é forte. N?o perca até a última rodada.

  — Guarde sua espada até lá, Vyssin.

  Enquanto ele falava comigo, o árbitro já anunciava nossos nomes.

  — Bom... tivemos uma luta e tanto agora.

  Mas contemplem Chyo! O mais conhecido usuário de magia de fogo da academia!

  Quando Chyo entrou — olhos claros e cabelos loiros — a plateia o aplaudiu com fervor, e muitas mulheres gritavam seu nome.

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  — E seu oponente: Sonno! Aluno novo na academia, mas com grande potencial!

  De longe, ouvi comentários de pena: um recém-matriculado enfrentando alguém t?o adorado.

  Assim que entrei, todos se sentaram novamente. Exceto Misti.

  — Vai, Sonno!

  N?o posso negar que foi uma atitude fofa, vindo de alguém que me odeia.

  Chyo parecia completamente confiante. Queria impressionar. Era sua chance de mostrar suas habilidades mágicas.

  Mas eu tinha uma deusa dentro de mim. Ele só tinha mulheres inflando seu ego.

  — Vou terminar com isso rápido, So... esqueci seu nome.

  — Tenho certeza de que vai se lembrar.

  — Pode tentar, novato.

  — Vou apagar esse teu fogo com a palma da minha m?o.

  Assim que o árbitro se retirou, a batalha come?ou.

  N?o dei o primeiro passo.

  A plateia ficou em silêncio. Era possível ouvir os gritos da outra arena, chamando o nome de Akrivís.

  Eu n?o posso perder. N?o importa contra quem.

  Chyo ergueu o dedo indicador e come?ou a formar uma bola de fogo — do tamanho de um cavalo. O ar ficou mais quente, e a adrenalina disparou. Era minha primeira luta desde a morte.

  — Segura essa!

  Antes que lan?asse a bola, estendi a m?o e usei minha habilidade: entrei em sua mente.

  Foi por poucos segundos, mas o suficiente para frustrar seu plano.

  — Exploding!

  A bola de fogo explodiu ainda acima dele, jogando Chyo ao ch?o.

  O vento quente se espalhou pelo coliseu.

  — Boa, Sonno! — gritava Misti, audível de qualquer lugar.

  — Tá quente, né, senhor do fogo?

  — Seu... maldito!

  Mas n?o era à toa que ele era o melhor usuário de magia de fogo da academia.

  As flechas flamejantes me atingiram pelas costas. O calor queimava a pele, mas n?o o suficiente para me derrubar.

  Dei dois passos para frente, tirei as flechas das minhas costas e respirei fundo.

  N?o posso vacilar agora.

  Chyo se levantava lentamente, com o rosto sujo de fuligem da explos?o e os olhos arregalados com medo.

  — Você conseguiu me atingir... com truques baratos, n?o há beleza alguma em cancelar o ataque de um oponente.

  — Truques? — respondi. — Isso se chama inteligência. Você devia experimentar algum dia, talvez ache beleza nisso.

  Ele gritou e lan?ou outra sequência de flechas, as quais surgiam de círculos mágicos no ar. Rolei para o lado e avancei, fechando a distancia da batalha. Os olhos dele brilharam, preparando outra investida mágica.

  Agora.

  Me concentrei por um segundo, entrando brevemente em sua mente. Era difícil — ele resistia — mas eu era mais forte. Seu corpo hesitou, sua respira??o travou.

  Em um piscar de olhos, apareci à sua frente.

  E… BAAM!

  Um soco direto no est?mago o jogou para trás.

  A plateia vibrou pela primeira vez comigo.

  Misti gritou meu nome. Era estranho ouvir aquele incentivo — ainda mais vindo dela — mas, de alguma forma, me dava for?a para continuar.

  Chyo caiu de joelhos, tentando se recompor.

  — Como...? Eu... eu n?o consegui pensar...

  — A inteligência come?a pelos olhos, n?o pela mente. — respondi, limpando o sangue escorrendo do canto da boca.

  Ele rangeu os dentes, frustra??o estampada no rosto. Ent?o ergueu as m?os e come?ou a conjurar algo maior.

  Uma parede de chamas surgiu entre nós, impedindo que eu visse seus movimentos.

  Senti o calor aumentar até o ar come?ar a vibrar.

  De repente, bolas de fogo surgiram em círculos acima de mim, girando lentamente.

  Armadilha combinada com magia? Parece que ele come?ou a pensar.

  Mas minha mente é mais afiada.

  Fechei os olhos. Em vez de tentar desviar fisicamente, mergulhei na concentra??o. Senti a presen?a de cada esfera. Elas n?o eram mais fortes que eu. Eram objetos, construídos com magia — e, por isso, manipuláveis.

  Estendi a palma da m?o.

  — Silêncio. — murmurei.

  As chamas congelaram no ar. Cerca de vinte segundos de tens?o foram suficientes. Fiz um giro rápido e, com um movimento de bra?o similar ao controle de um navio, todas explodiram em volta de Chyo.

  Ele gritou, sendo engolido pelas próprias chamas.

  Quando a fuma?a se dissipou, ele estava no ch?o novamente, respirando com dificuldade. Suas roupas estavam queimadas nas extremidades, os cabelos torrados.

  Mas ainda consciente.

  — Desista, Chyo. Você já perdeu.

  Ele cuspiu sangue no ch?o e me encarou.

  — Nunca. A beleza só existe em quem… n?o desiste.

  Suspirei. Ent?o avancei de novo.

  Dessa vez, n?o usei a mente. Apenas os punhos.

  O primeiro golpe foi no queixo.

  O segundo, no ombro.

  O terceiro o levantou do ch?o e o jogou contra o ch?o de pedra, com for?a suficiente para rachar o solo sob ele.

  —Saiba que é pessoal, Chyo.

  Para finalizar a luta, dei um tapa em seu rosto que o deixou inconsciente.

  A plateia ficou em silêncio por um segundo. Ent?o tive mais aplausos que a primeira luta.

  O árbitro reapareceu na arena, envolto em sombras.

  — Vencedor: Sonno Bj?rny!

  Ouvi a voz de Misti vibrando mais alto que todas:

  — EU SABIA!!

  Sorri. Por dentro, eu tremia — n?o de medo, mas da certeza de que aquele era apenas o come?o.

  Chyo havia lutado com tudo, e mesmo assim caiu.

  Se os próximos forem mais fortes...

  Preciso evoluir. O mais rápido possível.

  O árbitro se aproximou de Chyo, checando sua condi??o. Ele ainda respirava, mas estava inconsciente.

  Antes de sair, virei para a plateia e vi Misti sorrindo, logo acenei de volta. Pela primeira vez, n?o havia ironia naquele sorriso.

  Desci as escadas em dire??o ao corredor de descanso, com o corpo cansado, mas a mente mais viva do que nunca.

  O corredor ao lado da arena era úmido e silencioso. O contraste com o barulho ensurdecedor do coliseu era quase desconfortável — como se o mundo lá em cima estivesse em um mundo próprio, e aqui embaixo estivesse a realidade crua.

  Sentei-me em um dos bancos de pedra, passei a m?o pelo rosto e fechei os olhos por um instante. O suor se misturava com o cheiro de fuma?a e sangue. Meus punhos latejavam. As chamas de Chyo tinham me atingido mais fundo do que eu imaginava.

  — Você está bem?

  Abri os olhos devagar. Misti estava parada na minha frente, segurando duas garrafas d’água. Seus cabelos estavam um pouco bagun?ados e sua respira??o ofegante, talvez pela pressa em me alcan?ar.

  — Pra alguém que acabou de apagar o fogo de um mago com a m?o, acho que estou até tranquilo.

  Ela riu baixinho e se sentou ao meu lado, me entregando uma das garrafas.

  — Foi… incrível, sabia? Quando você explodiu aquela bola de fogo na cabe?a dele... eu quase pulei da arquibancada.

  — Quase? Ent?o você ficou parada?

  — N?o zombe de mim, idiota. Eu torci por você!

  — Eu notei — sorri, com o sorriso mais sincero.

  Houve um breve silêncio. O tipo de silêncio que n?o incomoda, mas diz muita coisa. Misti batia os pés com ansiedade, formando um ritmo musical, possivelmente buscando coragem para algo. Eu, por outro lado, apenas observava em cada detalhe: o brilho nos olhos dela, o modo como ela escondia um certo orgulho por mim atrás de uma express?o despreocupada.

  — Você parecia outra pessoa lá em cima — ela disse, por fim. — Confiante… parecia saber exatamente o que fazer o tempo todo.

  — Porque eu sabia.

  — E fora da arena? Também sabe?

  Aquilo me pegou desprevenido. Olhei atentamente para ela.

  Os olhos de Misti estavam fixos nos meus. Havia uma pergunta maior por trás daquelas palavras — algo que nem ela parecia pronta para admitir.

  Mas eu n?o entendia direito, talvez por traumas passados.

  — Nem sempre — respondi, com sinceridade. — N?o dá pra prever o próximo golpe aqui fora.

  Ela se acalmou lentamente, sua respira??o voltava ao normal.

  — Talvez... seja por isso que a gente luta.

  — Como assim?

  — Pra entender o que somos, mesmo quando n?o estamos lutando.

  Por um instante, só a respira??o dos dois preenchia o espa?o. O som abafado de outra luta explodindo acima parecia distante, insignificante.

  — Obrigado por ter torcido por mim — falei.

  — Obrigada por ter vencido — respondeu, quase sussurrando.

  Ela se levantou primeiro, mas hesitou antes de se afastar.

  — Sonno?

  — Pode falar.

  — Se algum dia eu for sua oponente… n?o vá pegar leve comigo, tá?

  — Eu n?o pegaria. O que eu fiz com Chyo hoje é só uma prévia do que eu faria.

  Ela sorriu de verdade dessa vez.

  — Vou ver como a Akrivís está, me espere na plateia!

  Ent?o, Misti se levantou e foi embora.

  Fiquei ali, sentado por mais alguns minutos, sentindo o calor do combate come?ar a desaparecer da pele, mas n?o da alma.

  Aquela conversa, aquele olhar… me lembraram de um passado inadmissível.

  Mas…

  A verdadeira luta estava prestes a come?ar.

  Esperem ansiosos!!

  ~Anjos

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